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Repórter Ativo

El Cruce 2016: linda e desafiadora

As provas de montanha têm a vantagem de trazer surpresas ao longo do percurso, para o bem e para o mal. A edição da desejada El Cruce não poderia ser diferente.

Fiz a inscrição com 6 meses de antecedência, junto com dois amigos (Artur, o único português da prova e com o Zubieta). Nessa parte é preciso organização e pesquisa para gastar o mínimo possível e aproveitar tudo o que a viagem pode proporcionar. Alugar um carro, por exemplo, foi a melhor decisão. Percorrer por 4 horas a região dos Andes, num cenário diferente de tudo o que estamos acostumados, já vale o passeio. Na volta, outras 4 horas, pudemos fazer pela Rota dos 7 Lagos. Outro cenário de tirar o fôlego.

Chegada a hora de retirar o kit. Organização nota 10. Mala, camiseta e segunda pele de ótima qualidade. Pelo preço da inscrição, tinha mesmo que ser desta forma.

Foi também na véspera que entregamos a mala com as roupas e suplementos dos dias 2 e 3 da corrida. Almoço bacana na simpática San Martin de Los Andes e chegada a hora de ter uma boa noite de sono pra encarar os 3 dias de corrida.

Na largada, enfrentamos muito vento e frio, além de animação e ansiedade. O percurso do 1º dia, de 43km, teve grau de dificuldade médio. O ganho de altitude aqui não foi difícil. A falha da organização foi colocar o ponto de apoio no 35° quilômetro – ou não coloca e os atletas se planejam em relação à suplementação, ou que coloquem no máximo no 25.

Mas, adversidade vencida. O clima entre os participantes era de alegria, com muita conversa e visual bonito. Foi também no 1º dia que entramos no Chile. Na chegada, churrasco com carne de novilho, frango, linguiça e salada. E tudo isso durante todo o dia, sem miséria.

Inesquecível foi o banho no rio de água extremamente gelada. Entrar ou não entrar? Muitos não entraram, mas….se é pra encarar uma prova dessas, que venha mais um desafio! E foi bom demais, até porque a água gelada ajuda na recuperação. Afinal, ainda faltavam mais dois dias. Hora de comer um pouco, aproveitar a luz do dia para separar a roupa e mochila de corrida do dia seguinte e descansar. Um leve cochilo, mais comida e cama. Ou melhor, colchonete na barraca. Chovia nessa hora, o que atrapalhava bastante o descanso.

A largada do 2º dia foi em ordem de acordo com a classificação de chegada do dia anterior. Levei 2 pares de tênis. Para esse dia, fiquei na dúvida entre correr com um tênis seco ou calçar o molhado que usei no 1º dia. Fui para a segunda opção – e fiz a melhor escolha, até porque na chegada dessa etapa pude vestir um tênis confortável e seco até o dia seguinte. Dó de quem terminou o segundo dia e, com muito frio, permaneceu com o tênis molhado no pé.

Essa segunda etapa considero que foi a mais difícil. Foram 30km – porém, logo na largada, enfrentamos durante meia hora uma bela caminhada/corrida dentro do rio. Isso para dar bolhas e congelar o pé é fácil, fácil. Não deu outra. Logo na saída do rio, muitos atletas pararam para se alimentar e trocar de tênis.

Perguntei a uma menina se ela queria ajuda. Ela precisava de um band-aid, só. A habilidade dela em seu “curar” era incrível. Sem pensar muito, ela pegava a bolha, apertava e enfiava a agulha. Simples, não?! Simples para ela. O que aconteceu aqui é muito comum nas corridas de montanha. Quando está parado, praticamente todos que passam por você perguntam se precisa de ajuda.

Término de uma nova etapa…..e aqui, algo bom e ruim estavam pra acontecer. Você era recepcionado com um belo sanduba de linguiça. A notícia ruim é que desta vez não teria banho de rio porque…..não tinha rio. A solução foi trocar imediatamente a roupa molhada de suor, tomar um “banho” de lenços umedecidos e colocar o tênis seco e confortável. Chinelos? Nem pensar, pois o vento e frio eram gigantes. Sem ter muito o que fazer, hora de comer e beber bastante água.

À tarde fiz um pouco de alongamento e fiquei papeando com os argentinos que faziam o delicioso churrasco no melhor estilo fogo de chão. Até um cigarro de corda fumei com os novos amigos. Teve assunto Pelé x Maradona, Tevez no Corinthians e muitas risadas. Isso sem falar que tive tratamento VIP das carnes que preparavam. Deu para esquecer das dores da prova e se preparar muito bem, sem vacilar muito, para o 3º e último dia de prova.

Mais 30km e terminaria a El Cruce. Assim, demos a largada para a corrida – ou melhor, para a caminhada de quase 3 horas. Subimos uma imensa montanha e chegamos literalmente acima das nuvens. Lá, um vento fortíssimo, que balançava o corpo. E isso só dava motivação.

Queríamos ou não encarar coisas diferentes? O visual era espetacular! Ficaríamos horas por lá. Mas….o fim da subida era o fim da brincadeira. Hora de soltar a lombar e ir morro abaixo.

Aqui, tive o meu melhor desempenho nos três dias. Sentia muita força e certeza que chegaria (quase) inteiro. Faltando 6 km para o final, passei por um atleta argentino que passou um recado que me valeria até o final da prova. Ele dizia que meu ritmo estava ótimo e que agora era dar o máximo da força, pois não tinha o porquê de poupar mais energia.

Aquilo me deixou ainda mais forte e cheguei muito bem. Para variar, emocionado e com a sensação de que cada treino valeu a pena. Não só o treino, mas como a dieta e tanta logística para fazer da prova uma linda viagem.

El Cruce ficará marcado como uma prova diferente de todas as 10 de longa distância que fiz. Ficará marcada pelo cenário e pelas adversidades de dormir num acampamento sem conforto. Mas ficará marcado principalmente pelo clima de união entre os competidores e, acima de tudo, dos amigos que me acompanharam. Parabéns a todos que encararam esse desafio e suerte aos corajosos do ano que vem.

Denis Garcia, executivo de 39 anos, corre há 10. Já fez sete maratonas e três ultras nos últimos três anos.

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