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História do belga Philippe Thys, o pai da camisa amarela do Tour de France

Uma vez por ano, durante três semanas, os ciclistas mais resistentes do planeta percorrem mais de 3.500 km no encalço de um pedaço de pano. É a famosa camisa amarela do Tour de France, que o primeiro a chegar leva pra casa. Um homem reivindica a criação dessa tradição que está completando um século: o belga Philippe Thys, primeiro tricampeão do Tour.

Philippe Thys nasceu em Anderlecht, em 1890. Apareceu para o ciclismo em 1910, quando venceu o campeonato belga de ciclocross. No ano seguinte, levou o Circuit Fraçais Peugeot, uma espécie de Tour de France para amadores. E antes de se profissionalizar vencer a Paris-Toulouse e a Paris-Turim. Virou “pro” em 1912, quando terminou o Tour na sexta posição.

A partir de então, sua carreira decolou. Em 1913, com apenas 23 anos, venceu o primeiro Tour de France. Ainda hoje é um dos ciclistas mais jovens a conquistar o feito – o recorde é de Henri Cornet, campeão com apenas 20 anos. Não foi uma vitória fácil para o jovem belga. O garfo de sua bicicleta quebrou logo nas primeiras etapas e ele só conseguiu continuar depois de encontrar uma bicicletaria no meio do caminho e fazer o reparo. O ato irregular lhe custou uma punição de 10 minutos. Na penúltima etapa, sofreu uma queda e precisou ser amparado pelos companheiros de equipe. Mais uma vez penalizado, ele terminou a prova com 8 min37s de vantagem sobre o francês Gustave Garrigou e comemorou o título.

Em 1914 a história se repetiu: nem adversário nem punições foram capazes de brecar a vitória do incontrolável Thys. O belga assumiu a ponta logo no primeiro dia e conforme o pelotão andava, sua liderança só aumentava. Alphonse Baugé, técnico de Philippe Thys, estava tão empolgado que lhe deu um presente. “Os torcedores na estrada precisam saber que você é o melhor. Precisam olhar para os ciclistas e saber que você é Thys, o líder da prova”. Ao dizer isso, lhe entregou um pulôver amarelo, que se destacava das roupas escuras e embarreadas dos demais. Eis a origem da camisa amarela – apesar de a versão oficial dizer que ela foi criada alguns anos mais tarde.

A rivalidade com Pélissier

Seja essa a origem da tradição ou não, o fato é que, naquela altura, o bicampeonato do belga parecia consolidado. Mas na última etapa Thys foi obrigado a trocar a roda de sua bicicleta e levou uma punição de 30 minutos. A enorme vantagem que tinha angariado na classificação geral despencou então para míseros 2 minutos sobre Henri Pélissier, o primeiro grande ídolo do ciclismo francês. O Tour só seria decidido na última etapa, entre Dunquerque e Paris, em cerca de 300 km. Uma multidão foi para as ruas, incentivar o ciclista local. Nascia ali uma das maiores rivalidades do esporte. O problema é que a multidão, que estava na estrada para empurrar o francês na verdade o atrapalhou. Era tanta gente na rua, tantos “obstáculos”, que Pélissier não conseguia atacar. Philippe Thys apenas se defendeu. Ficou na roda o tempo todo, até ambos cruzarem a linha final. O belga era bi, vestindo o pulôver amarelo.

Em 1915, os franceses queriam revanche, mas outra batalha tomou conta do mundo: a I Guerra Mundial – que interrompeu o Tour até 1919, e os franceses ficaram sem o duelo. Para muitos, Thys ficou sem novos títulos do Tour. Mas a disputa se estendeu por outras provas.

Giro di Lombardia, 1917. Lá estão Thys e Pélissier entre os favoritos. O belga e o francês passam a prova atacando, mas no final cinco ciclistas chegam juntos ao velódromo para disputar a prova no sprint, no qual Pélissier, por suas características, era favorito. Thys ataca na última curva, Pélissier o alcança e os dois pedalam os últimos metros com os ombros colados. Vão assim até cruzarem a linha. Ninguém sabe quem venceu. A organização da prova se reúne. A torcida não deixa o velódromo. Minutos depois, os italianos declaram Philippe Thys campeão. Pélissier se revolta, não aceita o resultado, mas não tem o que fazer: no placar dos rivais, 2 a 0 para o belga.

 

 

A Batalha de Roubaix

Paris-Roubaix, 1919. Lá estão novamente. Dessa vez, Henri Pélissier conta com o apoio de seu irmão, Francis. Depois de quatro anos de paralisação, a Rainha das Clássicas voltava a ser disputada. A guerra deixara marcas naquelas estradas: buracos, bombas, valas, destroços e manchas de sangue eram alguns dos obstáculos enfrentados pelas bicicletas. Isso em meio a frio, chuva e lama.

Thys foi o primeiro a atacar. Francis, o irmãos mais novo, tentou segui-lo, sem sucesso. Henri, com raiva, respondeu e o alcançou. A dupla parecia imparável. Parecia. Mas a estrada em Lesquin, pertinho de Lille, foi bloqueada para a passagem de um trem. E o trem parou. O francês Honoré Barthélemy alcançou a dupla e Pélissier se desesperou: “Os outros estão chegando!”. Henri então colocou a bicicleta no ombro e subiu no trem. Cumprimentou os passageiros, atravessou o vagão e saiu do outro lado da estrada, sem disparada. Thys e Barthélemy repetiram a atitude arriscada e, quilômetros depois, alcançaram Henri. Porém, o desgaste foi muito grande e Henri conseguiu vencer.

O belga voltaria ao Tour de France em 1920, quando se tornou o primeiro tricampeão e foi homenageado por Henri Desgrange, criador da prova. “A França não pode deixar de reconhecer que, se não fosse a guerra, esse gênio de Anderlecht estaria aqui comemorando seu quanto ou sexto título”, disse. Em 1922, ele ainda venceu cinco etapas do Tour, mas terminou em 14º lugar.

Philippe Thys se aposentou em 1927. Abriu uma loja de bicicletas e morreu em 1971, em Anderlecht. Escreveu histórias incríveis e  ainda hoje deixa muitos imaginando se ele teria sido o maior campeão da prova, não fosse a guerra. Seu maior legado, porém, se mantém nos ombros de todos os campões: le maillote jaune.

A história oficial

Segundo os organizadores, o primeiro ciclista a vertis a camisa amarela foi o francês Eugene Christophe, no Tour de 1919, na primeira edição da prova após a I Guerra Mundial. Na 11º etapa, entre Greoble-Genebra, o “Velho Francês”, de 35 anos, teria colocado amarelo por ideia de Henri Desgrange, criador do Tour e diretor da prova. A cor seria uma referência às páginas do jornal L’Auto, organizador do Tour. Embora essa tenha sido a primeira vez que oficialmente o líder da prova colocou uma camisa diferente, para muitos, Desgrange apenas oficializou a ideia de Thys e seu treinador.

Por Bruno Vicari

Redação

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