Categories: Cicloturismo

Solidão, reflexões e meias molhadas em um pedal espiritual pela Patagônia

O produtor musical João Bolzan, 29, não é um ciclista convencional. Apesar de ter começado a pedalar ainda criança, Johnny não tinha o costume de encarar grandes distâncias sobre o selim quando decidiu tirar três meses sabáticos para pedalar pela Europa em 2015, sua primeira grande cicloviagem.

Este ano, ele criou um desafio diferente para si mesmo: pedalar de bicicleta fixa pelas paisagens frias “e muito úmidas!” da Patagônia. Nas duas viagens, Johnny foi sozinho. “Viajar sozinho é se conectar com você mesmo e se libertar das suas máscaras“, acredita.

 

Johnny sentindo a umidade da Patagônia na pele (Todas as fotos: Johnny Bolzan)

Conversamos com Johnny sobre o pedal pela Patagônia, que ele concluiu no começo deste mês. Confira:

> VO2 Bike: Por que você decidiu pedalar de fixa pela Patagônia? 
>> Johnny Bolzan: A Patagônia foi minha segunda cicloviagem, e foi muito mais experimental do que o pedal pela Europa, pois fui de fixa. Queria testar algo novo. Desde que aprendi a pedalar, ainda criança, nunca mais parei. E há um ano pedalo de fixa. Quando peguei a fixa pela primeira vez me apaixonei, foi uma overdose de bicicleta. Muita gente me achou louco pela decisão, e de fato foi muito puxado. 

>> Qual foi sua primeira cicloviagem?

Em 2015 fui para a Europa, passei por um longo trajeto, de mais de 4.000 km, ao longo de três meses. Comecei pegando a balsa de Londres para a França, e de Calais, no litoral da França, subi para a Bélgica, cruzei o país, desci por entre a França e a Alemanha Cheguei no sul da Alemanha, um lugar maravilhoso, de contos de fada. Depois desci para a Itália, até roma, aí subi pelo mediterrâneo, sul da França, até chegar em Barcelona. Rodei pouco mais de 4.700 km. 

 

>> Você partiu com o percurso já planejado?

Tinha pensado no trajeto antes de começar, mas ia descobrindo conforme avançava. Eu não sabia exatamente o que havia pela frente, fazia escolhas de última hora. Não paguei um centavo em hospedagem, fiquei sempre em Couch Surfing, um modelo de hospedagem gratuita incrível que recomendo muito, onde você acaba tendo experiências muito mais locais. Fiquei em 65 hospedagens diferentes pelo CS. 

>> Que bicicleta você usou nesta viagem?

Usei uma bicicleta de touring inglesa chamada Dawes Vantage, com freio invertido, bem coisa de inglês (risos).

>> Na Patagônia as coisas foram diferentes?

 

Na Patagônia foi muito diferente, fui de fixa e rodei 620 km em três semanas de viagem. Na primeira cidade em que fiquei, minha anfitriã de Couch Surfing me convidou para dar uma palestra para as crianças na escola onde ela trabalhava. Fui e falei sobre a importância de saber falar inglês, e sobre se conectar com as pessoas, de como viajar pode te ajudar com isso. Quis instigar as crianças a criarem algo, a perceberem o mundo. 

 

Johnny com as crianças com as quais conversou na Patagônia

>>Qual foi o trajeto que você fez?

Fiz a rota austral, a famosa carretera 7, que é um percurso clássico daquela região. Fui no outono, peguei alguns dias de sol, mas no geral fez bastante frio, e sofri muito com a umidade. Quando fazia 15 ou 16 graus eu já ficava muito feliz! (risos)

>>Onde você se hospedou pedalando pela Patagônia? Usou o Couch Surfing de novo?

Na Patagônia, revezei entre acampamento e pousadas, com poucas estadias em Couch Surfing. Acampei em três lugares, mas estava muito frio, então à noite fica quase impossível, principalmente com o pouco equipamento que eu carregava na bike. Como estava fora de temporada, as hospedagens e pensões também estavam baratas, então aproveitei para ficar nelas. Usei o CS em três cidades: no começo, no meio e no fim da viagem.

>> O que você achou mais difícil na viagem?

A viagem tem uma questão mental que conversa com o físico. Tem dias em que acontece um perrengue qualquer, mas você está no meio do nada e o único caminho a seguir é em frente. Não dá para ligar para alguém te auxiliar. Então creio que esta é uma das minhas dificuldades, que na verdade é uma superação: manter a cabeça no eixo. Se você tem um problema no meio do nada, no frio, em um lugar onde não passam carros, a pior coisa que você pode fazer é se desesperar e entrar em pânico. Mas nunca tive grandes problemas. Meu maior contratempo foi a umidade, e ficar com os pés molhados, um erro terrível! 

>> Como é viajar sozinho?

Viajar sozinho é se conectar com você mesmo e se libertar das suas máscaras, das personas que criamos no nosso dia a dia. Durante a jornada, voltamos a ser nós mesmos, em nossa essência. No meio da cidade e das pessoas, é mais fácil “dar chilique”, tentar chamar a atenção. Mas sem ninguém para assistir, você vai chamar a atenção de quem?

>> Quanto você pedalava por dia?

Pedalei entre 40 km e 50 km por dia. Quando fui para a Europa, fazia 70 km ou 80 km por dia, mas estava com uma bicicleta mais “gourmet”, com cidades por perto durante todo o trajeto, era outro esquema.

Johnny na balsa

>> Houve algo que você desejou ter levado, ou que levou e depois percebeu que não precisava?

Levei roupa demais, shorts e camisetas extras que eu não precisava ter levado. Mas no geral fui muito sensato com a minha roupa. No total, tinha 17 kg na bike, que foram diminuindo ao longo do caminho, pois grande parte daquilo era comida. Fui comendo minha bagagem! (risos)

>> O que você procura viajando de bike?

Essas viagens me trazem inspiração, ativam uma criatividade adormecida dentro de mim. Não é apenas uma viagem de bike. O importante não é o seu destino final ou quantos quilômetros você pedalou, e sim a maneira como se viaja. A bike é um meio de transporte que deixa a viagem maravilhosa. Você se sente vivo, acordado, dá uma chacoalhada na vida. Não é para um spa que eu quero ir, é para este playground de maluco que é se aventurar sozinho, de bicicleta, pelo desconhecido.

 

 

 

Fernanda Beck

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