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A influência da visão antropológica na corrida

A influência da visão antropológica na corrida

Com o advento dos tênis de corrida, que antes apenas protegiam os pés dos corredores, veio uma onda de sistemas incríveis de amortecimento que trouxeram uma falsa impressão que não podemos correr sem amortecimento.

Não defendo nenhum tipo de tênis de corrida específico. Sinta-se à vontade para experimentar correr descalço, minimalista e todas as variações até o maximalismo; mas temos que ser criteriosos para entender o que é melhor para cada um e quando vale a pena um tipo de calçado ou outro.

Este tema faz parte do livro “Evolução e movimentação humana”, de Pablo Santurbano. É o referencial que usamos para analisar nossa biomecânica, e dois termos me chamam muito a atenção nesta visão baseada na antropologia — a incompatibilidade evolucionária e a adaptação forçada. Vamos entender!

 

Como nossos ancestrais

Primeiro, o fato de compararmos corredores que nasceram e vivem na cidade pode ser um problema sem um referencial com nossa origem, que são os Homo que viviam nas savanas africanas correndo descalços.

Eles se movimentavam de várias formas durante as atividades diárias e passavam pouquíssimo tempo sentados. Quando o faziam, sentavam-se no chão ou em troncos. Também usavam a posição de cócoras como forma de descanso.

A partir daí, começamos a compreender que muitas das retrações que nos impedem de correr bem, com liberdade de movimentos e uma biomecânica natural são causadas por horas sentados em sofás, bancos de carros e cadeiras de trabalho.

 

Impacto na corrida é necessário

Em segundo lugar, a crença de que o impacto é maléfico contamina o discernimento do que é bom ou ruim. Na verdade, o impacto é importante para estimular o osso a armazenar cálcio, direciona o trabeculado ósseo, que é como vigas metálicas de uma coluna de prédio formadas por um reforço de colágeno, que passam por dentro do osso.

Essa mesma força de impacto educa nosso sistema a lidar com instabilidades, pois a partir dessas forças que nossos músculos aprendem a desacelerar o movimento em contrações excêntricas importantíssimas não só na corrida, mas em qualquer atividade do dia a dia.

O problema quando achamos que podemos poupar o corpo desses estímulos naturais e importantes para nossa biologia é que esse processo gera uma adaptação forçada. Nosso corpo entende que não precisa mais saber amortecer tão bem o impacto, pois o calçado já faz isso.

Quando menos esperamos, perdemos nosso arco plantar e a eficiência em amortecer as cargas durante a corrida. No momento em que mais precisamos forçar um pouco mais o corpo para correr uma prova, por exemplo, o sistema está desabilitado.

Dessa forma, passamos a sentir dores nessas estruturas sobrecarregadas ou em ossos, como na osteoporose. Aliás, é curioso como nossos idosos utilizam sapatos macios “ortopédicos” para evitar impacto, quando é ele que atrai cálcio para os ossos.

 

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Movimente-se mais e com tênis de corrida mais baixos

A antropologia chama esse processo de incompatibilidade evolucionária. Produzimos instrumentos ou vestimentas ou desenvolvemos hábitos que levaríamos várias gerações para uma adaptação biológica natural, e esperamos que o corpo se adapte em apenas alguns anos. Isso não é possível!

Portanto, quando nos aproximamos da nossa essência, geralmente nos sentimos mais confortáveis. Correr em terrenos mais variados e irregulares, com tênis de corrida mais baixos e nos movimentando mais durante o dia são exemplos de hábitos ancestrais.

Em contrapartida, se ficarmos muito tempo sentados ou corremos com tênis mais altos e macios, nos afastamos de nossa essência e nos tornamos menos adaptáveis. 

Um estudo de Daniel Lieberman de 2015 demonstrou que pessoas que correm descalças têm uma capacidade de adaptação maior a mudanças de terreno e calçados do que corredores que utilizam com tênis mais estruturados.

Por isso, minha recomendação é tentar variar o tipo de calçado e terreno em que se treina e abusar de movimentação durante o dia. Hoje, depois de um treino longo, me movimentei bastante e tenho sempre esse hábito.

Faço caminhadas, brinco com meus filhos e ajudo na arrumação da casa. Assim o corpo fica mais solto – e descansar só deitado e, de preferência, dormindo.

Os textos, informações e opiniões publicados nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo.com

Sobre o autor

Claudio Cotter

Fisioterapeuta esportivo e gestor da CM2 Clínica Multidisciplinar em São Paulo. Pós-graduado em Medicina Psicossomática, especialista em RPG, Método Busquet e Força Dinâmica. Palestra... VEJA MAIS

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