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O que as longas distâncias me ensinaram

O que as longas distâncias me ensinaram

Gosto sempre de me questionar (e me desafiar) por que estou tentando sempre superar novos limites. Então, juntamos pela segunda vez um grupo de amigos e saímos de Mogi das Cruzes até Basílica de Aparecida do Norte pela Rota da Luz. 

Foram 200 km em 4 dias. Depois de fazer o Desafio das Serras 2015 40+40 km de Ubatuba a Cunha mais tenso que já fiz, além da El Cruce de los Andes (100 km) em 2016, percebi que realmente tenho mais facilidade em correr longas distâncias do que provas curtas.

Não pela quilometragem, porque em nenhum dia dessas provas corri mais do que a distância uma maratona, mas pelo tempo de prova. Por exemplo, devido às más condições do terreno subindo para Cunha, demorei 9h50min. No dia seguinte me senti muito bem para a segunda etapa.

Durante a El Cruce aconteceu o mesmo, me senti melhor após os 100 km do que depois de provas mais curtas como 10 km e 21 km. Sabendo disso, um amigo, Claudio Caldeira, me apresentou para outro, Edward Monteiro. Em 2017 criamos o primeiro Desafio 200k Mogi-Aparecida. Entre corredores, ciclistas e pessoal de apoio, éramos 11 pessoas.

Neste ano repetimos a dose, mas em apenas 6 pessoas. As lições que tiramos de um desafio como este são muitas, e a primeira delas sem dúvida é que pelas estradas de terra do interior do estado existe muita gente disposta a ajudar quem precisa.

Por todo o trajeto as pessoas cumprimentam os viajantes, perguntam se precisa de água ou alguma ajuda. Chegaram até a nos parar para oferecer café na estrada no meio da corrida. Mas certamente a experiência mais emocionante foi a do Edward, um de nossos companheiros. Em um momento de muita dor, um garoto de moto passou oferecendo ajuda ao Edward. Não só o ajudou, como foi até a farmácia comprar um spray analgésico e água.  

A segunda lição é o quanto este tipo de desafio reflete no resto de nossas vidas, pois além de passar 4 dias maravilhosos com amigos vendo paisagens de tirar o fôlego, testamos nossos limites (média de 50 km por dia), e quando pensávamos que não era possível ir mais um pouco, percebemos que sempre existe uma reserva de força lá no fundo.

E este tipo de força é o que chamamos de resiliência, que nos torna capazes de levantar a cada tombo que tomamos da vida sem preguiça, sem medo de cair de novo, pois sabemos que a cada tombo levantamos mais fortes.

A terceira lição vem da estratégia de treino que usei neste ano comparada ao ano passado. Em 2017 eu havia treinado para uma maratona que aconteceu 6 semanas antes do primeiro desafio. Assim ficou bem fácil de aumentar um pouco mais o volume na sequência e me beneficiar disso.

Este ano foi diferente — minha última maratona tinha sido no final de julho e pelo fato de ter trabalhado muito depois dela, acabei reduzindo muito o volume de treinos por 2 meses tendo aumentado o volume apenas no mês que antecedeu o desafio.

Assim, minha estratégia foi aumentar gradativamente o volume a cada semana: 60 km, 70 km, 80 km e 90 km, mas distribuídos pela semana, não tendo corrido mais do que 25 km em nenhuma semana, apenas na última fiz um treino de 30 km (antes do primeiro desafio em 2017 consegui fazer várias semanas um treino que costumo fazer no caminho para o trabalho: 21 km de manhã e 21 km à tarde).

Conclusão, no meu desempenho o tipo de treino não impactou em nada. Percebemos que o calor gerava a queda de velocidade nos trechos que fazíamos mais lentamente. Mas ao final, nenhuma dor e a confirmação de que me sinto melhor correndo longas distâncias do que provas curtas.

Esse é um dado importante para quem quer se aventurar em provas mais longas, pois às vezes achamos que quanto maior a distância, mais lesiva é a prova. Na verdade, dependendo do biotipo, nos sentimos melhores em provas mais longas do que curtas. Mesmo em treinos intervalados de velocidade, sinto meu corpo muito travado na recuperação, sensação que passa longe quando corro ultras.

Aliás, minha sensação é que quanto mais me movimento, melhor me sinto, e isso vai de encontro ao que tenho estudado sobre antropologia, alguns artigos já citei em postagens anteriores, mas deixo aqui uma referência para quem gosta de pesquisar.

Este artigo demonstra que tendemos realmente a ser atletas de endurance naturalmente pelas aquisições evolutivas. Respondendo à questão inicial, às vezes a resposta vem naturalmente. Depois de tantas lições, ainda pude ouvir mais uma vez do meu amigo Edward durante um dos trechos que fizemos juntos, que sempre que ele lê meus artigos e minhas postagens se inspira para treinar.

Sem dúvida é o fator que mais me motiva a criar novos desafios, a continuar escrevendo e a influenciar positivamente as pessoas que estão ao meu redor. Gostaria ainda de agradecer o apoio de Márcia Freitas, que junto com o Caldeira promovem caminhadas e trilhas pela Katuapé, e Munique Berto, também no apoio, e os parceiros de corrida Arnaldo Berto e Edward.

Os textos, informações e opiniões publicados nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo.com

Sobre o autor

Claudio Cotter

Fisioterapeuta esportivo e gestor da CM2 Clínica Multidisciplinar em São Paulo. Pós-graduado em Medicina Psicossomática, especialista em RPG, Método Busquet e Força Dinâmica. Palestra... VEJA MAIS

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