Papo de Corrida

Explosões, banheiros e chá quente: uma brasileira nas Major Marathons

Nova York, Boston, Chicago, Londres, Tóquio e Berlim. As Major Marathons são provas cobiçadas por qualquer corredor no mundo inteiro, e participar de apenas uma já é considerado um privilégio. Terminar todas as seis provas, então, é algo que menos de 3 mil atletas de todo o mundo conseguiram. Depois da Maratona de Londres de 2017, a brasileira Fabiana Tito integrou-se a esse grupo seleto.

Economista, ela começou a correr em 2001 por incentivo de amigos e foi pegando gosto pela evolução que sentia em seus treinos. Depois de uma boa rodagem em provas de 21k, decidiu enfrentar a primeira maratona em 2009: “É uma mistura de sensações: você fica cansada e pensa que nunca mais vai fazer isso na vida, mas algumas horas depois você fica bem animada e já se pergunta quando é a próxima”.

Fabiana adora desafios e enxerga na corrida uma boa maneira de testar os seus limites. E completar as seis Major Marathons foi a meta estabelecida pela economista. Já em 2010 ela conseguiu ser sorteada para a Maratona de Nova York, a primeira de seu currículo: “Em Nova York é um pouco complicado de se locomover, a cidade inteira para e você tem que acordar muito mais cedo. Depois de chegar na largada você tem que esperar pelo menos duas horas no relento”.

Passando frio, ela não hesitou em aceitar os chás oferecidos pela organização antes da corrida, mas logo percebeu que tinha sido um erro: na largada sentiu que precisava ir ao banheiro. Resultado, teve de parar logo no quinto quilômetro. Depois do pequeno imprevisto, ela completou a prova com sucesso em 4h32min34s: “A prova é sensacional, com bastante subida, e os últimos 6 km no Central Park enganam um pouco com uma leve inclinação”.

Em Boston, Fabiana encarou um acontecimento que mudaria a vida de todos os presentes. A prova costuma mobilizar toda a cidade, por sempre acontecer no Dia dos Patriotas, um feriado importante para o estado de Massachusetts. Ela estava sem o preparo ideal para a prova em 2013, mas a queda de rendimento nem se compara ao que ela enfrentaria nas ruas da cidade.

Duas explosões próximas à linha de chegada do evento deixaram três mortos, mais de 200 feridos e o mundo todo em choque. Graças a uma parada para ir ao banheiro, Fabiana estava a 800 m de uma das bombas no momento da explosão e não foi atingida – os minutos perdidos impediram a corredora de estar mais próxima da catástrofe.

Impossibilitada de terminar a prova por motivos de segurança, ela foi convidada a retornar em 2014 para correr novamente. Apesar do clima de apreensão e do receio que um incidente como aquele pudesse se repetir, as medidas de segurança mais criteriosas passaram a confiança que os corredores precisavam: “Foi um dia muito bonito em um ano mágico”.

 

 

Em Berlim,  Fabiana obteve um de seus melhores tempos nas famosas Majors, mas enfrentou novamente um pequeno problema relacionado a bebidas quentes. O frio característico da Alemanha estava presente no dia e um acidente ficou na memória de Fabiana: “Em um posto de hidratação, fui com tudo achando que seria um isotônico ou água gelada, mas era chá quente! Tomem cuidado para não pegar esse chá”, ela recomenda.

Em 2016, Fabiana conseguiu ser sorteada para a Maratona de Tóquio e teve um obstáculo além dos 42 km: “É uma viagem longa, cara e com um fuso muito diferente. O ideal é chegar uma semana antes para se adaptar”. Na hora de correr, ela foi surpreendida com a organização dos japoneses. Nenhum copinho de água ou qualquer outro lixo era jogado pelo caminho, tudo era descartado em enormes lixeiras: “Você fica até sem graça de jogar no chão”.

Contando com a Maratona de Chicago, que já havia corrido em 2011, Fabiana já estava muito próxima de seu objetivo. Naquela ocasião a largada ocorreu em uma temperatura amena de 19ºC, mas o clima imprevisível da cidade a surpreendeu com um calor de 27ºC no final da corrida. Ela até viu um “sinal amarelo” da organização para alarmar os corredores, mas nada tão grave que impedisse sua determinação: completou o percurso com 4h19min43s.

A etapa final do sonho de completar todas as Majors veio em 2017. É preciso ter muita sorte para conseguir correr em Londres, mas Fabiana Tito foi chamada pela organização e com 3h56min37s, seu melhor tempo no circuito, escreveu seu nome na lista de Six Star Finishers (Corredores Seis Estrelas): “Foi muito emocionante, todas as provas passam pela sua cabeça”.

Apenas 2538 atletas do mundo todo tiveram o privilégio de correr em todas as Major Marathons, e Fabiana está entre os 41 brasileiros que conseguiram esse feito. Na próxima Maratona de Tóquio, mais 15 corredores do Brasil entrarão para esse grupo. Uma medalha exclusiva, com ilustrações das seis cidades icônicas, é fornecida a todos os Six Star Finishers das Major Marathons para representar a conquista.

 

 

“O ponto principal, independente do seu pace, é a dedicação”, ela afirma. “A corrida melhora muito sua vida, você fica mais resiliente, focado e paciente”. Com muita disciplina e vontade de evoluir, Fabiana já está inscrita para a décima maratona de sua carreira, em Paris, e ainda está longe de parar: sua meta é ficar abaixo das 3h50min neste ano.

Breno Deolindo

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