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Iser Bem, o brasileiro que bateu Paul Tergat

Foto: Iser Bem treinou bem. Ganhou de Tergat

A notícia saiu discretamente na primeira página da Folha de S. Paulo de 1º de janeiro de 1998. “Brasileiro vence a São Silvestre” era o título da chamada ao pé da capa, do lado esquerdo, em uma nota de apenas um parágrafo que dizia: “O brasileiro Emerson Iser Bem venceu ontem a 73ª corrida de São Silvestre. Ele ultrapassou o favorito, o queniano Paul Tergat, no final da prova. Na competição feminina, a vencedora foi a equatoriana Marta Tenório”.

A letra fria da notícia jamais poderia capturar o quanto de drama, sangue, suor e lágrimas serviram de combustível para aquela conquista, importante em si mesma e mais valorizada ainda pelo nome do derrotado.

Paul Tergat, de imenso sorriso, pernas de garça e assombrosa velocidade, já havia vencido as edições de 1995 e 1996. Para muitos, ele não era o favorito, já era mesmo o vencedor. Restava apenas saber quem completaria o pódio. Ele estava então com 28 anos e já era tricampeão mundial de cross country. Viria a ser recordista mundial da maratona e conquistaria mais três títulos na São Silvestre.

Naquele ano de 1997, teve de render homenagem a um jovem paranaense, filho de pai eletricista e mãe confeiteira. No coração, é gaúcho, comedor de churrasco, e se orgulha de seus três filhos serem colorados como o pai; a filha única, mais velha, porém, é corintiana.

Emerson Iser Bem tinha 24 anos e fazia apenas uma década que aprendera a correr. Deixemos que ele mesmo conte como foi.

“Lá em Santo Antonio do Sudoeste, onde eu morava, tem uma corrida anual, que sai da praça da cidade e vai até a praça de San Antonio, na Argentina, de lá volta para a praça brasileira. São 7 km. Em 1985 eu tinha visto a corrida quando tinha ido levar leite na cidade. Fiquei encantado com aquilo. Durante todo aquele ano fiquei treinando e pensando na corrida. Em 1987 corri pela primeira vez.

“Naquela prova estavam Gentil Custódio de Melo, Osvaldo de Jesus, Celso Alembrant, entre outros top do atletismo nacional. Corri uns 2 km junto com os ponteiros e obviamente não suportei mais. Fiquei uma semana andando com dor muscular.

“Conversei com o professor da minha escola, Luis Bernardi, e passei a fazer os treinos sob a orientação dele. Esperaria mais um ano para ter outra oportunidade de correr. No ano seguinte a prova teve uma categoria para a minha idade, que então fazia uns 2,6 km. Saía do ginásio de esportes de San Antonio e chegava à praça no Brasil. Nessa prova já larguei liderando e acabei vencendo um atleta que figurava entre os melhores do Paraná na categoria. No final estava muito cansado, e um amigo que me acompanhava de moto chegou ao meu lado e falou: “Não podemo se intregá pros home, mas de jeito nenhum!”. Essa frase povoou meu pensamento por muitos anos e esteve comigo em muitas conquistas.”

Emerson não se entregou, como mostram os resultados que foi obtendo ao longo de sua carreira. Só veio a ser conhecido do grande público, porém, quando venceu a São Silvestre de 1997. E é sobre ela que conversamos agora.

Rodolfo Lucena – Como você se preparou para aquela São Silvestre?

Emerson Iser Bem – Na verdade, eu não estava me preparando para a SS. Nem mesmo iria participar da prova. Naquela época eu disputava o GP de Cross na Europa. No início de janeiro eu costumava viajar para o Velho Continente e lá ficava por algumas semanas participando de provas dessa modalidade.

Cheguei a vencer o GP de Portugal, em 1996. Acredito que ainda seja a única vitória de um brasileiro nesse tipo de prova. Assim, nos meses de novembro e dezembro, durante a temporada de dois meses em Campos do Jordão, meu foco nos treinos era a temporada de Cross.

Além disso, justamente naquele ano, pela primeira — e única — vez na história meu antigo clube ficou sem patrocínio por três meses. Por isso, planejei correr a SS de Avaré, onde teria mais chances de ganhar algum dinheiro, pois todas as contas estavam atrasadas.

Porém, tinha a Corrida de São Silveira, em Barueri. Para minha felicidade, acabei fazendo uma prova muito boa e venci. Já com os R$ 3 mil de prêmio e com as contas garantidas, liguei para o meu treinador (Ricardo D’Ângelo) e falei que gostaria de correr a SS. Lembro que ele ainda mencionou que só valia a pena se ficasse entre os cinco primeiros e eu estava livre para correr onde quisesse. Mesmo assim fui a São Paulo.

Eu estava em uma fase muito boa. Meus treinos eram realizados em 11 a 12 sessões semanais, com volume de cerca de 160 km a 180 km. Havia muito trabalho de força, devido ao cross, mas também uma boa qualidade.

Naquele ano estávamos em Campos em duas casas. Eu fiquei com o João Leite e o Márcio Cruz, que eram atletas de meio fundo, então eles me dificultavam a vida nos treinos mais rápidos. Na outra casa estavam o Vanderlei Cordeiro e o Eduardo Nascimento, que me dificultavam a vida nos treinos mais longos…

Já no mês de dezembro eu e o Vanderlei fizemos algumas sessões de dois tiros de 5 km para 14min40. Fazíamos também cerca de 20 a 26 tiros de 400 metros. Rodávamos o longo quase sempre no Horto Florestal e terminar uma subida ao lado do Vanderlei era um desafio. Lembro que nos últimos treinos eu cheguei a subir mais rápido e fiquei até surpreso com isso.

Certo dia, ao ir à padaria buscar pão, vi na manchete de um jornal que se dependesse da SS os brasileiros não teriam o que comemorar, pois naquele dia chegava o Paul Tergat a São Paulo. Pensei um palavrão enquanto concordava com a manchete. Mas já havia corrido boa parte de algumas provas de cross com ele e então fiquei pensando que na São Silvestre eu poderia acompanhar um bom pedaço pelo menos.

Rodolfo Lucena – Como você cuidava de sua hidratação, de sua alimentação, do período de descanso?

Emerson Iser Bem – Eu nunca havia tido um suporte de orientação sobre nutrição, mas naquela época conheci em Piracicaba o Marcos Vinicius Vasconcelos, e consegui com a orientação dele ajustar muita coisa. Isso nunca foi fácil para mim, talvez um grande adversário. Sou filho de gaúcho e simplesmente não consigo ficar sem carne, churrasco, para ser mais preciso. Mas na época o Marcos me ajudou e durante um bom tempo consegui seguir tudo.

Água eu bebia sempre, nos longos não tínhamos suporte, então, se no meio do caminho tivesse uma fonte, bebíamos, senão não. O descanso era um ponto forte. Eu entendia que o bom condicionamento e o consequente resultado viriam se eu treinasse bem, me alimentasse bem e descansasse bem.

Ainda hoje acredito que treinar nos meses de calor em Campos do Jordão favorece muito a recuperação, pois durante a noite a temperatura cai muito e o sono fica de ótima qualidade. Particularmente não acredito muito que os resultados aconteciam devido aos treinos em altitude, como muitos pensam ou pensavam, mas sim pelas condições de concentração absoluta e descanso.

Rodolfo Lucena – Você imaginava que seria possível vencer a São Silvestre?

Emerson Iser Bem – Claro que não imaginava vencer. O Tergat tinha vencido duas vezes e naquele ano já tinha corrido 10 mil metros em pista para 26 minutos e meia-maratona para menos de 1 hora. Mas eu não costumava traçar planos antes da prova. Eu me concentrava muito para suportar os longos minutos de esforço físico e tomava decisões em função do andamento da corrida. Com o Tergat na prova, a estratégia inicial era muito simples: tentar acompanhar o máximo possível.

Rodolfo Lucena – O que aconteceu naquele dia 31 de dezembro de 1997? Como começou o dia?

Emerson Iser Bem – O dia 31 de dezembro de 1997 foi muito quente. Eu havia passado a noite em Piracicaba, optando por ir para São Paulo na tarde da prova. Fui de carro até Cosmópolis e de lá um carro da equipe nos levou (eu, Eduardo Nascimento e o Vanderlei) até a Avenida Paulista. Sempre ficávamos no estacionamento do prédio da Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo). Chegamos lá por volta das 13h.

Nosso carro ficou no terceiro piso e ao lado dele coloquei um papelão no chão, fiz um travesseiro com algumas roupas e dormi um sono profundo. Acordei ainda a tempo de ver a Marta Tenório nos quilômetros finais. Ainda sonolento, recebi do meu treinador o meu número de participação, 13. Como nunca fui supersticioso, não dei importância.

Aquecemos ali mesmo no estacionamento subterrâneo, de onde saímos trotando até a largada.

Rodolfo Lucena – Como foi o desenrolar da prova?

Emerson Iser Bem – Estava muito quente. O sol estava ardendo na pele. Não havia muita estratégia a pensar com todos aqueles africanos, eram uns 18 ou 20. Mas tentaria seguir junto o máximo possível. Eu nunca acertei uma prova “vindo de trás”. Ou acompanhava o grupo ou não dava.

A largada foi mais tranquila do que eu pensava que seria. Na descida da Consolação encontrei e troquei um aperto de mãos com um grande amigo da África do Sul, Hendrick Ramaala, companheiro de muitas alegrias nos pós-provas dos GPs de Cross…

A prova seguiu bem tranquila, passamos a marca do km 5 em 14min20, pelo que eu me lembro. Por volta do km 7, a prova deu uma acelerada e ficamos em um grupo de seis atletas. Nesse grupo, além de mim, estavam o Vanderlei, o Silvio Guerra (Equador), o Tergat, o Ramaala e o John Morapedy, que também era da África do Sul.

Como eu sempre traçava as metas ao longo do percurso, nesse momento eu considerei que o objetivo de estar no top 10 já estava bem encaminhado, e que precisava ganhar de pelo menos um daquele grupo para subir ao pódio. Mas o grupo não se desfazia e nos mantivemos juntos até bem próximo ao início da subida da Brigadeiro, onde o Tergat acelerou e abriu uma distância de cerca de 50 ou 60 metros.

Eu permaneci ao lado do Ramaala e do Vanderlei. Lembro que o Ramaala deu um baita tiro logo que a subida iniciou, e foi quando o Vanderlei ficou. Mas eu fui junto. Logo em seguida Ramaala deu outro tiro, ainda mais forte. Eu acelerei junto e quando ele soltou, eu resolvi manter. Foi quando eu me isolei no segundo lugar. Na minha cabeça, naquele momento, eu só queria escapar do Ramaala e mais ainda do Vanderlei, pois havia um carro para o primeiro brasileiro.

Então olhei para trás algumas vezes buscando o Vanderlei, pois ele era realmente muito forte em subidas. Com essa preocupação de fugir dos que vinham atrás, acabei me aproximando do Tergat.

Quando eu já estava bem próximo, vi o professor Luis Minardi, técnico do Cruzeiro, com algumas garrafas de água na mão e lembro que ele jogou um pouco no Tergat. Eu na hora não gostei, pois ele estava ajudando um adversário. Logo em seguida ele jogou também água na minha cabeça e aquilo foi maravilhoso, pois o calor era realmente demais.

Rodolfo Lucena – Por favor, vamos dar uma parada aqui. Paul Tergat teria dito que ficou meio assustado quando alguém jogou água nele e que daí você aproveitou para fazer a ultrapassagem…

Emerson Iser Bem – Só se tivessem disparado uma trompa d’água nele. O Minardi tentou jogar um pouco de água nele, mas deve ter sido muito pouco, até porque ele estava correndo a uns 19 km/h. Eu mesmo logo depois quis pegar mais água, mas não consegui, pois o Minardi estava com garrafas e a vazão é muito pequena. Seria melhor se fosse um copo.

De qualquer forma essa argumentação eu nunca escutei dele pessoalmente. Além disso, esse episódio da água aconteceu a bem mais de 1 km da chegada. Eu ainda estava atrás, porém já vinha em uma velocidade superior à dele. Finalmente posso afirmar que até mesmo o Tergat deveria estar sentindo calor naquele dia, e é bem provável que essa água tenha lhe ajudado muito.

Seria interessante a explicação de como um pouco de água em um dia de 31°C, ao final de uma subida tão dura, possa atrapalhar. Essa derrota não reduz em nada a carreira brilhante de um dos maiores atletas da história. Tanto que no ano seguinte, quando fui sexto, logo no início da Brigadeiro alguém estourou uma “champanhe” no meu rosto. Nunca fiquei falando que não subi no pódio por essa razão. Só reclamei que poderia ter sido uma bebida de melhor qualidade…

Rodolfo Lucena – Bem, agora nos adiantamos. Vamos voltar à subida da Brigadeiro…

Emerson Iser Bem – Logo mais cheguei no Tergat, mantive o ritmo e assim acabei ultrapassando, mas ele veio junto. Nesse momento parecia que o segundo lugar estava mais garantido, mas daí a ousar pensar em vencer o grande nome do atletismo era outra coisa.

Decidi que pelo menos na foto de chegada eu iria estar junto e, portanto, precisaria correr muito no final. Ao entrar na reta da Paulista, acelerei com todas as minhas forças e foi uma das maiores surpresas da minha vida ele não ter respondido ao meu ataque. Ainda assim eu imaginava que a qualquer momento ele poderia me ultrapassar. Só acreditei mesmo quando cruzei a linha de chegada.

Ainda hoje falo muito isso aos meus atletas: “Não tenham medo de fazer a sua história. Algumas oportunidades serão únicas. Não dá para amarelar”. E foi assim mesmo, pois no ano seguinte a preparação foi ainda melhor, mas no dia eu não estava me sentindo tão bem…

Rodolfo Lucena – O que a vitória na São Silvestre mudou na sua vida?

Emerson Iser Bem – Não posso dizer que a São Silvestre foi a melhor prova da minha vida. Tive outros momentos de grande performance também e alguns ainda acho que corri até mais. Mas sem dúvida foi a prova que me proporcionou um reconhecimento incrível. Não só aqui no Brasil, mas também no exterior. Acredito que isso se deve também ao fato de quem foi o segundo colocado.

Algumas mudanças imediatas foram ruins, pois não tinha nenhuma estrutura para lidar com isso tudo, outras obviamente foram muito boas. Foi ruim o assédio, que me incomodava. Antes eu saía correndo nas ruas e era só mais um maluco correndo. Depois não conseguia correr 1 km sem parar para dar autógrafo ou tirar fotos.

Nas competições também passei a ter uma responsabilidade enorme. Naquela época havia muitos atletas no mesmo nível. Só que enquanto meus adversários aqueciam, eu tinha que atender a imprensa. Então eu era o cara a ser vencido em uma época que muita gente andava forte.

Na Corrida de Reis de São Caetano aconteceu um fato curioso. Quando já estávamos todos alinhados para largar, eu tinha a mania de estapear as pernas. Quando fiz isso, praticamente todos que estavam ali também fizeram… Eu quase comecei a rir. Ficou aquele som de todos estapeando as pernas…

Mas fora isso as mudanças foram muito positivas. Passei a ter um reconhecimento dos meus familiares que moram no Paraná e não entendiam muito bem o que eu estava fazendo da vida. Meu clube, que estava sem patrocínios, fechou naqueles dias com São Caetano e outros patrocinadores, e a situação financeira também melhorou.

Atualmente ainda tenho, em alguns momentos, os efeitos dessa vitória me proporcionando coisas boas. Evidentemente que ter vivenciado tantas experiências no esporte de alto rendimento faz a diferença no momento de falar de corrida, que é com o que mais trabalho basicamente. Mas não estou trabalhando com corrida só porque é um bom mercado. Eu faço parte da história desse esporte. Então isso faz diferença, claro.

O fato é que não me apresento com um cartão de visitas em que aparece a inscrição “Campeão da São Silvestre”. Muitos amigos até discordam disso, mas atualmente sou professor e quero reconhecimento profissional pelo que faço agora, e não pelo que aconteceu há mais de 15 anos. Ter sido um bom atleta não significa necessariamente ser um bom treinador. Então fiz faculdade de educação física, fui bolsista de iniciação científica, fiz pós-graduação em treinamento e agora estou cursando outra de educação física escolar. Não posso ficar esperando que as coisas caiam do céu só porque um dia fui um bom atleta.

Melhores tempos e algumas conquistas de Emerson Iser Bem:

1.500 metros – 3min48s – Presidente Prudente, 1993

3.000 metros – 7min57s – São Paulo, 1994

5.000 metros – 13min35s43 – Holanda, 1997

10.000 metros – 28min32s

10 km – 27min58s – em Montevidéu, 1998, mas tem também 27min59s em Chiba, no Japão, em 1997

15 km – 43min45s – na passagem da meia de Tóquio em 1996

Meia-maratona – 1h14min – em Tóquio, 1999

Maratona – 2h17min – em Turim, 2001

Principais vitórias:

– São Silvestre – 1997

– Cross de Portugal – 1996

– Meia de Buenos Aires – 1996

– Vários títulos brasileiros de Juvenil em pista e de Cross

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