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A psicologia pode mesmo ganhar (e perder) provas?

A psicologia pode mesmo ganhar (e perder) provas?

Um dos principais pontos que busquei e busco no esporte é a questão psicológica. Acredito que são inúmeros os benefícios que podem ser considerados quando a pauta é a prática de qualquer modalidade esportiva.

E dessas pautas, cada vez mais comentadas nos treinos, é o fator psicológico. Ele realmente pode fazer a diferença? Um atleta com a “cabeça boa“ pode mesmo ir mais além? Por outro lado, um atleta extremamente preparado para o desafio, mas desestruturado psicologicamente pode colocar tudo a perder? Baseado nestas perguntas, como então usar deste quesito positivamente? É possível treinar o psicológico?

Eu tenho uma opinião formada exclusivamente pela minhas experiências pessoais – como a maratona do deserto, Ironman, Mundial de SwimRun e incontáveis treinos sob chuva, sol, frio, calor e etc. Na mesma linha, talvez todos os grandes nomes do esporte mundial dão sinais claros de quanto o psicológico auxilia em seus melhores (e também piores!) resultados.

Como não estudei especificamente o assunto (e não sou psicólogo) busquei o apoio de uma profissional da área para discutir o assunto – e até desvendar todas estas dúvidas: a psicóloga esportiva Cecilia Mira.

Psicóloga com experiência na esfera corporativa e também no esporte paralímpico do Rio de Janeiro, Cecilia faz o MBA Internacional em Coaching pela Sociedade Latino Americana de Coaching (SLAC), em São Paulo, é professora certificada e autorizada pelo Center for Skillful Means, da Califórnia, para ministrar o tema “Transforming Stress into Well-Being” no Brasil.

Em uma conversa muito bacana, ouvi dela o que realmente acontece, o que pode ser considerado “lenda“ e algumas dicas de como você pode utilizar do fator psicológico para superar seus limites!

Confira na íntegra o nosso bate-papo:

Arthur Borelli – De uma forma rápida, qual a melhor definição sobre a Psicologia Esportiva? Quando ela realmente começou a ser utilizada – e até mesmo valorizada?

Cecilia Mira – A Psicologia do Esporte, por Williams e Straub, é uma identificação e compreensão de teorias e técnicas psicológicas que podem ser aplicadas ao esporte. Coleman Griffith é considerado o pai da Psicologia do Esporte quando, em 1925, fundou o primeiro laboratório de Psicologia do Esporte na Universidade de Illinois, onde iniciou o primeiro curso na área.

No Brasil, começou na década de 50 com a atuação do primeiro psicólogo João Carvalhaes na Seleção Brasileira de Futebol, campeã na Copa de 58. Contudo, apenas na década de 90 o campo da Psicologia do Esporte foi incluída na grade curricular de alguns cursos de Psicologia.

Diante do fato, os profissionais de educação física, esporte e até mesmo leigos atuaram em suas equipes misturando seus conhecimentos técnicos e específicos do esporte com conceitos da psicologia, com o intuito de melhorar a atuação de seus atletas.

Respeitando-se o nível de competência, as habilitações profissionais e os aspectos éticos envolvidos, espera-se que o profissional do esporte possa estudar os fenômenos psicológicos, investigá-los e produzir trabalhos sobre eles, mas cabe ao psicólogo do esporte atuar na prática com os atletas, desenvolver técnicas para lidar com o estresse e promover reuniões para discussão de problemas grupais ou sessões individualizadas.

AB – Em seus trabalhos já realizados, é possível compartilhar algum exemplo positivo e negativo sobre o assunto?

CM – Quando comecei minha atuação em um projeto de detecção de talentos para alto rendimento não fui muito bem recebida. Muitos atletas achavam que a psicologia era coisa de maluco, outros nem sequer dirigiram a palavra a mim. Com o passar do tempo, os estereótipos foram desmistificados e construímos uma relação pautada na confiança e em resultados. Ainda que não esteja mais no projeto, muitos atletas me procuram e faço aconselhamento de coaching. Além disso, atuo especificamente com uma atleta paralímpica nos treinamentos e estamos trabalhando os aspectos psicológicos junto à comissão técnica rumo aos Jogos Paralímpicos do Rio de Janeiro, neste ano.

AB – Na sua visão, o fator psicológico realmente pode proporcionar um resultado além do esperado? Por quê?

CM – Com certeza o fator psicológico pode contribuir muito para que o atleta possa aumentar sua performance. Por meio da preparação psicológica, pode desenvolver habilidades internas para lidar com as variáveis que interferem no seu desempenho, atenção e concentração, motivação, emoções, ansiedade e tensão, que deverão ser trabalhadas de acordo com o seu perfil.

AB – Um atleta de alto rendimento, mas sem a devida preparação psicológica, pode ter seu plano atrapalhado?

CM – Cada atleta tem um perfil psicológico, mas é muito comum que ocorram situações consideradas estressoras. Se o atleta não souber lidar com elas, através de respostas emocionais positivas, pode ser que essa variável venha a interferir no seu planejamento – e consequentemente no resultado. Ainda mais quando se trata de um atleta de alto rendimento, que precisa estar preparado mentalmente para lidar com as adversidades, principalmente no momento da competição, por exemplo, quando segundos ou milésimos de segundos podem determinar sua vitória ou derrota.

AB – Seguindo sua linha, entendemos que é necessária uma boa e forte preparação psicológica. Sendo assim, como podemos nos preparar também neste quesito? É necessário um treinamento contínuo ou se resume a uma preparação específica e estará tudo encaixado?

CM – Não existe uma receita de bolo quando tratamos de pessoas. Temos que levar em consideração as particularidades de cada atleta para então propor um treinamento psicológico. O treinamento psicológico acompanha o atleta em todas as fases: a pré-competição, o durante e após a prova. Ele deve ser tratado com a mesma importância que a preparação física, técnica e tática. Todos estes fatores, somados, podem oferecer ao atleta e à comissão técnica melhores condições para obter os resultados desejados.

AB – Mesmo se nos referirmos a atletas que competem por hobby ou simplesmente praticam alguma modalidade esportiva, a questão psicológica tem a mesma importância?

CM – A Psicologia do Esporte assume a mesma importância tanto em alto rendimento quanto em práticas de atividade física. Entretanto, no alto rendimento, o psicólogo utilizará técnicas e metodologias que visam a alta performance do atleta e da comissão técnica. No contexto da atividade física, o foco será trabalhar mais com os professores como mediadores para a construção da identidade do sujeito, de cidadania através do esporte e a concepção de bem-estar e qualidade de vida do não-atleta, por exemplo.

AB Qual sua mensagem para os atletas?

CM – Desejo que todos possam experimentar os benefícios que o trabalho da Psicologia do Esporte pode proporcionar, desmistificando o nosso papel no contexto esportivo.

AB – É muito comum ouvirmos por aí que, para superarmos tal objetivo, precisamos dedicar uma porcentagem ao treinamento específico, outra para a alimentação e uma terceira parte ao sono e descanso. Entendo e concordo que estes três pilares são fundamentais. Mas eu realmente acredito que falta, sim, um percentual equivalente para o lado psicológico.

Uma mente forte, sem dúvida alguma, irá auxiliar para que estes três pontos ocorram da melhor forma possível. A proporção é algo pessoal, sim. Mas a importância, para mim, é indiscutível!

Este trabalho psicológico é algo que vem de dentro para fora. A auto-confiança de grandes nomes do esporte mundial não seria tão perceptível se não fosse colocado para fora com sinais que muitas vezes se confundem com misticismos.

Rapidamente consigo pontuar três exemplos: Cesar Cielo, com aqueles tapas fortíssimos em seus peitorais; Usain Bolt, com aquele estilo marrento e singular de agir antes em cada uma de suas largadas; Cristiano Ronaldo, com sua posição cravada em cada cobrança de bola parada.

Esses atos, além de elevarem a adrenalina e colocarem o atleta a mil por cento, muitas vezes são responsáveis pelo desequilíbrio daquele adversário que não está estruturado psicologicamente…

Este é um exercício que busco no esporte – e replico ao máximo em minha vida profissional e até pessoal. Sem auto-controle, confiança, otimismo, vontade, garra e foco, nada terá um real sentido e o objetivo estará cada vez mais distante!

Os textos, informações e opiniões publicados nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo.com

Sobre o autor

Arthur Borelli

Empresário e atleta amador, Borelli direcionou sua vida profissional e pessoal para o esporte e garante que foi a melhor escolha que fez na vida. Atualmente, transita entre maratonas, corri... VEJA MAIS

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