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Da bulimia à maratona olímpica

Da bulimia à maratona olímpica

“Gorda, gorda, gorda! Go-ôôôr-da!”, gritava um demoniozinho no cérebro da jovem nordestina. Ela olhava o próprio corpo, pequeno e magro, e via uma senhora obesa, horrível. Não havia outra solução: precisava se livrar da comida, tinha de emagrecer, já, urgente, rápido, agora. Corria para o banheiro, enfiava o dedo na goela, vomitava até as tripas, deixava no vaso o pouco alimento que ingerira, mais bile e outros líquidos fedidos e nojentos.

Tinha desgosto do corpo, que via disforme. Então, repetia a operação várias vezes ao dia, comia e vomitava. Até que não deu mais para seguir daquele jeito. O apoio da família e a compreensão da mãe não bastavam para enfrentar o mal que a afligia, o corpo que desabava, os hormônios em pandemônio. Buscou conselho médico.

Teve ajuda psicológica, receitas de remédios. Mais importante que tudo, porém, talvez tenha sido o conselho do doutor: ela precisava de alguma atividade física. Tinha de ajudar o corpo a ajudar sua mente. Desempregada, não possuía recursos para uma academia. Tratou, então, de fazer caminhadas. Curtas, a princípio, depois mais longas; na volta, trotava, para chegar em casa mais rápido.

Pois o trote virou galope, o galope corrida, a corrida em desabalada carreira, vitórias, prêmios e na conquista maior: a garota anoréxica, bulímica, é hoje uma mulher saudável, forte, uma maratonista prestes a realizar o sonho de todo atleta, participar dos Jogos Olímpicos.

 

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Graciete Moreira Carneiro Santana nasceu pobre na pobre Serra Preta, uma cidadezinha a 50 km de Feira de Santana. Terceira de seis irmãos, é filha de agricultores. Veio ao mundo em 1980. Com 5 anos, deixou Serra Preta: o pai foi buscar vida melhor para a família que crescia. “Minha mãe conta essa história até hoje. Houve uma seca terrível, muita gente chegou a passar até fome, aí o meu pai, no desespero dele, veio pra cidade, pra ver se conseguia melhorar de vida. Trabalhou como lavrador, mas não tava dando mais, aí foi pra trabalhar como pedreiro numa construção aqui, que tinha por aqui, aí tentou a vida aqui, aí deu certo, teve os filhos aqui, terminou de criar aqui.”

O que seu Pedro queria era dar um futuro para os filhos, garantir que eles pudessem estudar, como Graciete me contou em entrevista por telefone de Feira de Santana, onde vive e treina para os Jogos do Rio 2016. “Eu só ajudava a minha mãe lá, vivia brincando mesmo. Meu pai nunca colocou a gente, criança, pra trabalhar, mas ele exigiu sempre os estudos. Queria que a gente fosse pra escola todos os dias, pegava no pé mesmo, queria um futuro melhor pra gente.”

Assim, Graciete fez a escola primária, entrou no ginásio, começou a fazer o segundo grau. Adolescente, se agradou de um menino, começaram a namorar, ficaram noivos, sonhavam com o casamento. “Quando eu estava noiva, querendo colocar tudo no casamento, eu estudava à noite e de dia trabalhava como empregada doméstica, isso até os 17 anos. Comecei com 14, 15 anos, apesar de que os meus pais não gostavam. Aguentei até os 17 anos, que é muito puxado. Aí eu desisti, pronto, casei.”

Casou novinha, com 20 anos, e desistiu dos planos de cursar faculdade: com o segundo grau completo, pretendia cursar educação física. Chegou a fazer o vestibular, passou e começou os estudos, para largar em seguida: na sua visão de então, as responsabilidades domésticas falavam mais alto. “Na minha cabeça, a ideia era de que a mulher casada tem que cuidar da casa. Na época eu pensava assim, mas hoje em dia já penso que a gente também tem que tomar conta de nossa vida”, diz Graciete.

A dedicação ao lar não foi suficiente: o casamento se desmontou em um ano. Tratou de assumir as rédeas de seu destino e começou a dar aulas particulares para crianças. Atendia a meninada em casa mesmo.

Gostou, achou que tinha jeito para a coisa, pensou que aquilo poderia ser uma carreira. Quando ficou sabendo de um concurso para o projeto Alfabetização para Todos, não hesitou em se inscrever. Passou, foi contratada, começou a dar aulas à noite, ensinava as primeiras letras para jovens e adultos. Quem visse a professora talvez imaginasse alguém feliz, satisfeita. Não poderia imaginar que, por dentro, Graciete era uma tempestade.

“Aí eu fui fazendo cursos para poder fazer a faculdade, mas ficava enrolando, aí quando eu via não conciliava nem uma nem outra, desisti de tudo”, lembra a hoje quase maratonista olímpica. “Tive um distúrbio emocional na época também, devido talvez ao fim do casamento. Eu não sabia lidar com as emoções, com as dificuldades que vinham, pareciam demais para mim. Eu fazia uma coisa num turno, outra coisa em outro, daí pra mim isso aí era demais na época. Aí comecei a ter problemas de bulimia, de anorexia, aí pronto, deixei de dar aula, deixei também de entrar na universidade, porque era uma coisa que eu não ia dar conta. Com isso, essa frustração e problemas pessoais que pintavam, caí nessa, nessa doença da bulimia; primeiro deu anorexia, depois que eu tive a bulimia.”

A professora virou um fiapo de gente. “Eu não comia, não queria comer. Às vezes era só uma maçã no dia todo e bebia água, suco, só.” A anorexia, como é de se esperar, interferiu no funcionamento do seu corpo. “Tive amenorreia, fiquei mais ou menos três anos sem ter menstruação, porque mexeu com os hormônios.”

Apesar da depressão, buscou ajuda médica. Começou um tratamento que envolvia, é claro, voltar a se alimentar bem. O que trouxe outros desafios. “Nesse voltar a comer eu engordei, aí eu achava que estava obesa, mas não queria ficar sem comer. Então eu comia e forçava o vômito, várias vezes ao dia, aí que veio a bulimia…”

Força sertaneja

Com quase 25 anos, resolveu não permitir que o mal vencesse. De novo, tratou de buscar ajuda. E encontrou um remédio que revolucionou sua vida. “O médico falou que eu tinha que fazer alguma atividade física, até para estimular os hormônios. Eu não podia pagar academia, então caminhava e trotava. O pessoal do clube de corrida me via, eles não me viam andando, só me viam voltando trotando e me convidaram para participar.”

Graciete saía de casa cedinho, caminhando pelas avenidas de Feira de Santana. Aos poucos, acelerava o passo, chegava ao ritmo de um trotezinho tranquilo, mas firme. Chamou a atenção da turma da Ascof, a Associação dos Corredores Feirenses. Com a corrida, a jovem não apenas conseguia regularizar o funcionamento do corpo. Também ganhava amigos, uma sensação de pertencimento. “Nas corridas, eu entrava mais por brincadeira mesmo, diversão, para ficar bem de saúde.”

Deu mais do que certo: “O pessoal foi me ajudando, e eu conheci o Domingos Alves, que treinava um grupo de atletas. Ele ficou sabendo do problema de bulimia e dava conselhos, tentava ajudar de várias formas, e em 2008 iniciei o treinamento com ele”. Treinamento e namoro, ambos prosseguindo firmes e fortes até hoje, pois Domingos é técnico e companheiro da maratonista, com quem compartilhou carreira, o processo de crescimento.

Já no primeiro ano de treinamento regular e com saúde, Graciete obteve bons resultados. “Eu me curei e comecei a entrar em provas. Comecei a perder peso aos poucos, ganhar desempenho, tendo mais vontade agora até pra brigar por pódio. Aí automaticamente vieram as provas e os resultados.”

Entrava em corridas curtas, conquistava um prêmio aqui, outro lá, R$ 300 numa cidade, R$ 500 noutra, provas de 5 km, de 10 km. Apesar das dificuldades, achava que podia viver do atletismo e ainda ganhar alegria. Em 2009, um ano depois de treinar regularmente, com orientação profissional, fez sua primeira meia-maratona, em Juazeiro, Bahia.

“Eu fui achando que ia correr essa meia lá pra 1h25min, 1h26min, cheguei a fazer 1h21min, com diferença pouca da primeira colocada. Aí foi onde caiu a ficha. Pensei que, se treinasse, me dedicasse mais, daria para viver, sim, do esporte, sem me arrepender de ter abandonado a carreira de professora. Foi ali onde iniciou tudo, aquela vontade maior ainda de ficar no atletismo e de viver do atletismo.”

Ganhou um prêmio de R$ 2 mil pelo segundo posto. Foi a maior premiação da sua vida até aquele momento. “Eu não tinha patrocínio, vivia mesmo do dinheiro das corridas. Muitas vezes ia ao comércio pedir ajuda pra pagar as passagens, algumas pessoas ajudavam, tinha aqueles que podiam, outros não. Aí, se numa prova eu ganhava R$ 2 mil, já separava um tantozinho para poder correr a próxima prova e outro tanto para me alimentar. Ia empurrando, sempre dava, comprava suplemento mais simples, pra poder também não treinar só com água. A gente sempre viveu assim, nunca sobrou um pouquinho pra fazer academia, porque não dava.”

Apesar de miúda — tem 1,54 metro e pesa 43 kg —, Graciete parece ser a encarnação da definição de Euclides da Cunha: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”. Com o pouco que tinha, alimentou suas ambições e passou a treinar para uma maratona. Em agosto de 2011, não apenas completou com força e saúde como foi campeã da prova de Londrina, interior do Paraná, com 2h51min.

“Eu fiquei assim tão feliz! Campeã e me sentindo bem, não senti aquela coisa quebrada, como muitos corredores falavam, que a maratona deixa o atleta acabado, cansado, eu me senti bem, parecia que tinha feito uma prova de 10 km. E decidi treinar mais para a maratona, focar mais, porque percebi que conseguia correr essa prova.”

Uma atleta olímpica!

Já iam longe os tempos da bulimia. “Naquela época, da doença,depois que eu fazia o vômito, eu me sentia acabada, no sentido emocional, fracassada mesmo, porque não sabia lidar com as minhas emoções. Era como se fosse uma viciada, que prometia não fazer a coisa, mas perdia a coragem e fazia. Tinha dias que eu acordava e prometia a mim mesma que não ia forçar o vômito, mas qualquer coisinha que tivesse, assim, que feria um pouco da minha emoção, ou algo preocupante, aí pronto, eu já forçava o vômito.”

Com os cuidados médicos, o exercício, o amor de seu treinador e companheiro, Graciete tinha uma vida nova. Em 2012, foi a segunda na Maratona de Porto Alegre, a melhor brasileira; no mesmo ano, no Rio, foi a primeira brasileira, a terceira no geral. A contrapartida das conquistas era o massacre do corpo.

“Tive muitas lesões, cheguei a ficar quatro meses sem treinar por conta de fratura por estresse. A primeira foi no final de 2011. Fiz a maratona de Londrina, só que a gente não tinha condições pra ter uma suplementação, uma alimentação tão adequada. Depois dela eu queria fazer outra maratona. Aí fui logo treinando, não dando descanso ao corpo, aí os ossos não aguentaram.”

Três anos depois daquela primeira fratura na perna esquerda, voltou a sofrer do mesmo mal, agora no pé, que demorou quase quatro meses para curar. “Eu tive muitas lesões, já tive umas quatro tendinites. Acredito que, se não fossem essas lesões, eu poderia até ter tido um desempenho melhor. Por isso que eu sempre falo: o pior inimigo do atleta é a lesão. Quando você está bem treinado, não tem esse negócio de medo de concorrente.”

De fato, rodar 180 km por semana exige cuidados. Mesmo assim, nos últimos anos tem conseguido focar mais no trabalho de força, acertar melhor metas e objetivos. Ficou sem lesão, mesmo com cinco maratonas em oito meses. Uma delas foi a de Sevilha, em fevereiro, quando conquistou o resultado que lhe valeu a vaga olímpica.

Com uma pequena poupança, ajuda de comerciantes, da federação baiana de atletismo e de amigos, conseguiu recursos para fazer sua primeira viagem ao exterior.

“Para ser sincera, eu fui, assim, na felicidade de viajar pra fora do País. No fundo, eu não acreditava que ia fazer o índice lá nem em lugar nenhum. No ano passado eu cheguei a fazer a maratona de São Paulo em maio, em julho fiz a maratona do Rio, quando foi em setembro fiz a maratona no Recife, quando foi em dezembro fiz uma maratona aqui na Bahia, num sol quente, terminei essa maratona acabada. Aí, em fevereiro fui correr uma maratona de novo, pra acertar índice, que foi em Sevilha, eu disse assim: ‘Meu Deus, isso não vai dar certo, isso não tem como’. Eu, cansada do ano todinho, de dezembro para janeiro não tive intervalo de folga para poder treinar pra ir pra Sevilha…”

O maridão acreditava, os amigos incentivavam. “O Domingos, meu marido, dizia: ‘Você tem condições de fazer o índice, você é bem ritmada, corre maratona bem’. Ele foi botando na minha cabeça, aí eu falei: ‘Então tá bom, vamos tentar’. Eu fui, mas na semana já bateu aquela assim: ‘Meu Deus, eu vou fazer o que lá em Sevilha?’, ‘Como é que eu vou nessa maratona pra fazer esse índice?’. Aí a passagem estava comprada, não tinha mais como voltar atrás. Viajei e deu tudo certo, eu consegui esse índice.”

Foi muita alegria, mas a tensão apenas começava. Era o dia 21 de fevereiro; até 8 de maio havia prazo para obtenção do índice de qualificação. A marca de 2h38min33s não era garantia… “Outra brasileira bem descansada, bem treinada, vai baixar meu tempo”, pensava. “Quando deu dia 8 de maio e ninguém bateu, nossa, para mim foi uma emoção grande mesmo, vibrei muito, chorei de emoção, porque para mim foi ali que a ficha caiu, agora realmente eu vou pra uma Olímpiada.”

Pois vá, Graciete, e seja feliz.

Os textos, informações e opiniões publicados nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo.com

Sobre o autor

Rodolfo Lucena

59, é jornalista, gaúcho, gremista, cachorreiro, escritor e ultramaratonista – já fez mais de 30 provas longas em cinco continentes. Autor de “Maratonando” e de “+Corrida”, atuo... VEJA MAIS

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