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O que podemos aprender com o recorde de Robert Marchand

O que podemos aprender com o recorde de Robert Marchand

Em janeiro de 2017 o bombeiro francês aposentado e com 105 anos de idade, Robert Marchand, quebrou o recorde da hora na categoria 105+ de idade. Ele já era o recordista para a categoria 100+, feito que completou 3 anos atrás (24,25 km percorridos em uma hora).

Robert, com 105 anos, completou 22,547 km em uma hora no velódromo em Saint-Quentin-en-Yvelines. Ele disse que talvez poderia ter coberto uma distância ainda maior se não tivesse perdido o aviso de 10 minutos para o final da prova. Ele diz que agora aguarda por um rival para a próxima tentativa de quebra de recorde.

Todos sabem o que significa esse feito. Uma pessoa com 105 anos pedalar durante uma hora com uma média de velocidade superior a 22 km/h é algo impossível de descrever em palavras. Mas o que está por trás desse grande feito?

As características do Robert Marchand foram estudadas e acompanhadas quando ele tinha 101 anos (e completou 24,25 km em uma hora) e depois quando ele tinha completado 103 anos de idade (e completou 26,92 km em uma hora). Antes de cada recorde quebrado, ele completou um teste em cicloergômetro.

 

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Nesse intervalo de dois anos entre os dois recordes, ele treinou 5.000 km por ano, com um treino polarizado e envolvendo 80% do volume de treino em intensidade leve (percepção de esforço igual ou menor que 12) e 20% em intensidade difícil (percepção de esforço igual ou superior a 15). Cabe aqui esclarecer que essa escala de percepção vai de 6 (repouso) a 20 (exercício insustentável).

A cadência de pedalada sempre estava entre 50 e 70 rotações por minuto. Ainda, nesses dois anos entre os recordes, a massa corporal e a massa magra do Robert não mudaram significativamente, mas o seu consumo máximo de oxigênio aumentou 30% (subiu de 31 para 35 ml/kg/min). Seu pico de potência subiu 39% (subiu de 90 para 125 W), o que aconteceu principalmente por ele conseguir aumentar sua cadência de pedalada em 30% (subiu de 69 para 90 rpm).

A sua frequência cardíaca máxima não mudou significativamente (134 para 137 bpm; a de repouso também não mudou), enquanto que a máxima ventilação aumentou 23%.

Aqui já chegamos a uma primeira conclusão: mesmo tendo mais de 100 anos de idade, é possível melhorar a performance e o consumo máximo de oxigênio com um treino polarizado e focando em manter alta cadência de pedalada.

Mas esse feito significa muito mais. Hoje o número de idosos (pessoas com mais de 65 nos de idade) cresce a uma taxa acelerada, e esse segmento populacional será quase 20% da população total até 2050. Ainda, o segmento de pessoas com 80 anos de idade ou mais é o que mais cresce.

Com isso, o número de atletas máster participando em competições de ciclismo e corrida aumenta cada vez mais (aumenta no ciclismo e na corrida muito mais do que em outros esportes), e ainda se sabe pouco sobre como esses atletas respondem a estímulos de treino e competições.

Os dados fisiológicos do Robert Marchand equivalem ao de uma pessoa com 40 anos de idade e sedentária, e a possibilidade de melhora no seu desempenho e consumo máximo de oxigênio tendo mais de 100 anos de idade é uma forma de adicionar vida à vida, ao invés de aguardar a morte.

Então, um recorde desses significa que o esporte é o caminho para saúde mesmo quando todas as adversidades experimentadas podem direcionar para o contrário, sendo possível sempre melhorar a condição e saúde, mesmo quando se tem mais de 100 anos de idade. Esse feito também significa que as competições precisam valorizar e abrir espaço para esses atletas que são exemplo de superação.

Referência

• Billat et al. Cause studies in physiology: maximal oxygen consumption and performance in a centenarian cyclist. J Appl Physiol. 2017;122(3):430-34

Os textos, informações e opiniões publicados nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo.com

Sobre o autor

Felipe Carpes

É graduado em educação física, doutor em ciências do movimento humano e professor da Universidade Federal do Pampa (RS). Apaixonado por ciclismo, há mais de 10 anos está envolvido com... VEJA MAIS

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