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Venci a Ultra Fiord e sua rebeldia (mais uma vez)

Venci a Ultra Fiord e sua rebeldia (mais uma vez)

Esta foi minha quarta participação nas quatros edições da inóspita, difícil e selvagem Ultra Fiord. Na primeira edição mergulhei de cabeça nos 100 km, mas um acidente grave no km 29 feriu meu olho esquerdo e tive que abandonar a ultra no km 30 (dei “sorte” ao me acidentar faltando somente um quilômetro para chegar no Posto de Controle – PC).

Na segunda e na terceira edição da Ultra Fiord decidi ser mais conservador e fazer os 50 km. Não importava tempo nem posição — só queria chegar são e salvo. Na segunda edição fechei com cerca de 12h30min e na terceira, com 14h. Planejava concluir a quarta edição da Ultra Fiord (a qual também optei pelos 50 km) dentro dessa marca.

Depois da edição inaugural, na qual ocorrera algumas falhas de marcação do percurso, a organização se mexeu e implementou neste ano uma das melhores marcações de trail que já vi. A cada 15 ou 20 metros era possível visualizar uma marcação, seja em longas fitas coloridas ou em forma de  “olhos de gato”.

A largada de 2018 foi permeada de muito frio, algo entre 0°C e 3ºC. Iniciei o desafio com quatro camadas de roupas: uma camiseta, uma segunda pele, um corta-vento e um anorak, além de luvas e gorro. Diferentemente da falta de variação térmica do ano passado cujo frio foi uma constante, senti calor por muitas vezes neste ano. Fui na vibe de curtir o percurso, sempre parando para fazer vídeos e fotografando as belezas de tirar o fôlego. Largamos às 9h15 da manhã e, minutos antes, fomos informados que no PAS de El Salto (PC localizado no quilômetro 20) não haveria comida. Relevei, pois estava levando um estoque de frios, chocolate e biscoitos. Por experiência, sabia que só após o km 30 sentiria fome. Mas levando em consideração os anos anteriores, sabia que haveria sopas e miojos; nesta edição, teria que contar com minhas próprias provisões — infelizmente a organização deixou a desejar neste ponto.

Passo pelo primeiro PC lá pelo km 10, com duas horas de prova. Logo depois, o primeiro baque: havia um enorme tronco atravessado no percurso, e só fui vê-lo quando senti um enorme “tuim” e caí para trás. Entrei com a testa no “mardito”, e fiquei com receio de ter sido grave, pois senti algo no músculo do trapézio. Fiquei por uns três minutos parado e continuei trilhando.

 

Polska, um novo amigo

Comecei a subida para Chacabuco e o PC do local não estava lá. Nessa altura não via mais ninguém à frente nem atrás. Chegara na temida montanha de Chacabuco, que não estava branca de neve como nos anos anteriores, mas amarela e dominada por seus quinquilhões de pedras pelo chão. Foram cerca de 5 a 6 km de paisagem desoladora e magnífica, e onde pela primeira vez identifiquei problemas de marcação. Na realidade, o vento fortíssimo do local derrubou várias marcações. Por ter estado lá antes, sabia para onde ir, felizmente. Cheguei no PC Chacabuco 2 às 16h06 e perguntei quantos estavam atrás de mim. “Três”, respondeu o staff. Logo em seguida, um corredor enorme adentrou o PC. Pergunto a ele de onde era. “Polônia”, me respondeu. Passei, então, a chamá-lo de Polska.

Polska me chamou para correr ele. Percorri alguns metros ao seu lado, quando percebi que não chegaria ao final se tentasse acompanhar o ritmo do polonês, que era, no mínimo, 20 anos mais novo do que eu. Deixei ele ir. 

Já era às 16h30 e estava no km 20 da prova. O bosque começou a aparecer e logo depois um enorme calvário se iniciou, algo que não tinha ocorrido nas outras edições. Explico: a marcação do percurso estava com muitas falhas de continuidade, com marcações longe uma da outra e com marcações muito camufladas nos troncos das árvores. Por sorte sempre achava a continuidade, mas o desgaste emocional e de tempo para tanto acabava com o moral. Isso aconteceu várias vezes depois desse trecho.

Km 32 e finalmente a chegada ao PC El Bosque, depois de 4h10 de perrengues. Lá estava Polska, tomando sua sopa, secando os tênis na fogueira e com a manta térmica a lhe aquecer. Havia desistido. Nisto chega uma brasileira chamada Fernanda. Insisto para que Polska continue. Animado, ele se veste novamente e lá fomos nós três, juntos, para a continuação da aventura. Eram 20h40 da noite. Nos perdemos — e nos encontramos — por várias vezes. Como veterano da Ultra Fiord, me lamentava. Apesar de ter a melhor marcação em trail que já vi, este ano foi muito complicado.

Corria Polska, eu e Fernanda em fila indiana quando, de repente, o polonês. “Olha lá!”, exclama em um gesto brusco e repentino, apontando a lanterna para uma árvore. Um puma sobre um enorme galho de árvores nos observava. Mesmo sendo mínima a chance do grande felino avançar sobre nós, ficamos com medo. 

 

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Andando em círculos na Ultra Fiord

Corremos em disparada até o último PC Rio Tenerife, no km 38, onde Polska definitivamente abandonou a corrida. Eu e Fernanda continuamos sozinhos, saindo 00h30 de lá, no mesmo horário do ano anterior. E lá estavam os dois últimos corredores na prova e os intermináveis charcos, que estavam em número assustadoramente maior. 

Houve uma hora que comecei a ficar preocupado com a falta de evolução e perguntava repetidas vezes para a Fernanda sobre a marcação de seu GPS. Por mais que andássemos, parecia que não saíamos do lugar. Dito e feito. Como além da trilha em si me oriento espacialmente, procurando ver a localização das montanhas, rios que atravessamos etc, teve uma hora que disse a Fernanda. “Nós já passamos por aqui, veja esses detalhes”. Voltamos cerca de 1 km para ajustar a rota.

O sono começou a bater no meio da madrugada, mas parar não era uma opção. Avançamos e o cenário do bosque começou a ficar pra trás. A civilização estava próxima e na minha cabeça faltavam só mais dois quilômetros. 

Entramos em uma clareira e avistei uma luz que achei que se tratava da Estância Perales, local da chegada. Mas a luz chegava cada vez mais perto vindo do sentido contrário: era o esposo de Fernanda e mais duas amigas, que estavam preocupados com a demora e decidiram fazer a trilha oposta para resgatá-la.

Pergunto quanto andaram e me disseram “uns 3 km”. Era somente isso que faltava para o fim do calvário! Atravessamos o último obstáculo, um rio bastante largo, mas não estava tão congelante como nas vezes anteriores. 

Cruzamos a linha de chegada em surreais 23h32, exaustos e certos de que acabávamos de desafiar a natureza em seu estado mais bruto. A vontade? Voltar em 2019 para minha quinta Ultra Fiord. Quanto pior melhor, já disse aquele trail running.

 

Os textos, informações e opiniões publicados nesse espaço são de total responsabilidade do autor. Logo, não correspondem, necessariamente, ao ponto de vista do Ativo.com

Sobre o autor

Harry Thomas Jr

Jornalista especializado em corridas de rua desde 1999, Harry competiu pela primeira vez em 1994 e desde então já completou 31 maratonas – sendo três sub 3 horas: São Paulo (2h59min30)... VEJA MAIS

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