A Locomotiva Humana

Por Estanislau Maria*

Há 50 anos, aquele tcheco teimoso, irreverente e brincalhão correu a maratona das Olimpíadas de Melbourne-1956, na Austrália, e chegou em sexto lugar. Não podia, no entanto, ter corrido. Por recomendação médica, precisava de dois meses para se recuperar de uma cirurgia de hérnia de disco, feita apenas 45 dias antes da prova. Exatamente, ele operou uma hérnia e 45 dias depois correu a maratona olímpica. Mas ele não era um corredor comum. Era Emil Zatopek, a Locomotiva Humana.

Foi na Finlândia, no entanto, nas Olimpíadas de Helsinque, quatro anos antes, que Zatopek ganhou o apelido e virou um mito das corridas. Afinal conseguiu um feito jamais alcançado por mortal algum, até hoje. Ele conquistou o ouro olímpico nos 5.000 metros, nos 10 mil metros e na maratona, prova que nem era sua especialidade.

Entre os dias 20 e 27 de julho de 1952, aquele tcheco que já era um corredor fabuloso, praticamente imbatível nos 10 mil metros, se tornou a Locomotiva Humana. Correu 62,2 quilômetros em oito dias e estabeleceu três recordes olímpicos.

Quem corre sabe a necessidade do descanso para o organismo se recuperar do desgaste de uma prova, como os 10 mil. Mais: a semana anterior a uma maratona exige treinos apenas leves do maratonista, preparação, estoque de carboidratos, hidratação e concentração.

Aos 30 anos, Zatopek começou sua subida ao olimpo no domingo dia 20. Como era esperado, faturou fácil o ouro nos 10 mil metros, com novo recorde olímpico, 29min17s. Dois dias mais tarde, na terça, ele correu a eliminatória dos 5.000 metros e garantiu vaga na final de quinta. Feito um Garrincha das pistas, ele brincava com os adversários e com a torcida, corria desengonçado, chegava a parar nas pistas para retomar o ritmo frenético da Locomotiva.

Na quinta, 24 de julho, ganhou os 5.000 metros apertado, mas de forma sensacional ultrapassando os adversários –um britânico, um alemão e um francês –com uma arrancada na última volta e novo recorde olímpico: 14min06s.

Dia 27, domingo, lá estava Emil Zatopek a locomotiva humana correndo os 42.195 metros. O próprio Zatopek confessou depois que, sem estratégia para a maratona, resolveu seguir o britânico Jim Peters. Escolheu o dono do recorde mundial da época. Numa certa altura da prova, a Locomotiva entrou em ação, acelerou o ritmo, apertou os passos e deixou Peters e todos os outros adversários para trás e ainda cravou um novo recorde olímpico, com 2h23min04s. Detalhe: o britânico sequer terminou a prova.

Na chegada, Zatopek ainda brincou com a câmeras de TV fazendo caretas, simulando mais cansaço do que realmente sentia. Essa era outra marca do corredor tcheco. Sempre que corria, Zatopek fazia muita careta. Por esforço, concentração ou simplesmente irreverência, lá estava a locomotiva a distorcer os músculos do rosto enquanto ganhava mais uma prova, sobretudo a dos 10 mil metros, especialidade dele, na qual reinou absoluto entre 1948 e 1954, com 38 vitórias em 38 provas disputadas, 11 delas só em 1949.

Questionado pelo motivo de suas caretas nas corridas, soltou uma de suas famosas frases: “É que não tenho talento para correr e sorrir ao mesmo tempo”, brincou.

O mito Zatopek despontou nas Olimpíadas de Londres-1948, quando conquistou o ouro nos 10 mil metros e a prata nos 5.000 metros. Em Helsinque-1952 ele chegou como favorito para os 10 mil e dizia que resolveu correr os 5.000 porque não tinha nada para fazer até a maratona.

Treinos intervalados
As arrancadas devastadoras eram comuns na performance de Zatopek. Além da extraordinária forma física, ele inovou nos treinamentos da época e foi um dos precursores dos conhecidos treinos intervalados. Hoje consagradas, mas tido como esdrúxulos na época. Inicialmente, Zatopek foi tido como maluco por adotar uma receita de treinos tão heterodoxa. Com as conquistas consecutivas, virou gênio. E a Locomotiva Humana não acumulou façanhas do nada.

Ele treinava duro diariamente alternando as corridas longas de resistência e os treinos intervalados, nos quais chegava a correr 40 quilômetros, em dezenas de tiros de velocidade.

O segredo do método estava no trabalho de estímulo (com repetição de tiros), duração e intensidade. Assim ele alternava as repetições, a duração dos tiros, a velocidade e também a duração e a forma do repouso. Zatopek desenvolvia resistência aeróbica e anaeróbica, velocidade de reação, de deslocamento, força explosiva e dinâmica, capacidade de recuperação, coordenação, ritmo e agilidade.

Ele costumava dividir os treinos em muitas de séries de tiros mais longos e mais curtos, alternando sprints de 400 metros, 300 metros e 200 metros, com maior e menor intensidade na corrida. Assim chegava a mais de 50 tiros de 400 metros numa única manhã de treinos, para repeti-los numa nova sessão à tarde.

Históricos 5.000 metros
Com esse estilo inovador de treino, na final dos 5.000 metros em Helsinque, Zatopek, que correu em quinto lugar quase a prova toda, deu uma arrancada fulminante para ultrapassar seus adversários. Faltando apenas uma volta na pista do Estádio Olímpico para o final, quatro atletas disputavam a ponta: Zatopek, o inglês Chris Chataway, o alemão Herbert Schade e o francês Alain Mimoun.
Chataway, que liderava a prova, tropeçou e caiu. Registrado em foto e pelas câmeras de TV, o tombo virou um clássico olímpico.

Schade, que vinha logo atrás, mostrava sinais de cansaço, e Mimoun assumiu a ponta, mas não conseguiu acompanhar a locomotiva. Zatopek arrancou para a vitória, abrindo 14 segundos sobre o francês.

São Silvestre de 1953
Depois da façanha em Helsinque. No ano seguinte, em 1953, a Locomotiva Humana desembarcou em São Paulo para correr a São Silvestre. Para os outros corredores, estava em disputa o segundo lugar, porque o primeiro já tinha dono.

E não foi diferente. Naquela época, o percurso tinha 7,3 km, metade dos 15 km de hoje. E a Locomotiva deu um show pelas ruas paulistanas. Chegou ao final da prova 500 metros adiante do segundo colocado e ainda marcou um novo recorde de 20min30s.

Infância
Nascido em 19 de setembro de 1922 em Koprivnice , Emil Zatopek foi o sexto filho de uma família simples, cujo pai era carpinteiro. Da infância modesta, ele deixou a escola cedo e virou operário ainda adolescente numa fábrica de sapatos em sua cidade.

Em plena Segunda Guerra Mundial, eram raras as disputas esportivas. Zatopek descobriu a corrida por acaso ao participar de uma prova popular de estrada, ainda adolescente. Em 1942, ele já era recordista nacional nos 5.000 e 10 mil metros. Quatro anos mais tarde, tornou-se conhecido ao conquistar o quinto lugar no Campeonato Europeu, em Oslo, na Noruega.

No final de 2000, os jornais de todo o mundo noticiaram: “a Locomotiva parou”. Emil Zatopek morreu, em Praga, aos 78 anos no dia 21 de novembro daquele ano, vítima de um derrame cerebral e complicações respiratórias.

A pedido da mulher, Dana Zaptopková, ele não teve um funeral de chefe de Estado. A solenidade foi no Teatro Nacional de Praga. Zatopek foi homenageado por mais de 60 ganhadores de medalhas olímpicas como ele e sepultado com a bandeira do país sobre o caixão.

Dana também foi campeã olímpica e conquistou ouro no arremesso do dardo nos mesmos Jogos de Helsinque, que assistiram à consagração do marido. Ela também conquistaria prata na mesma modalidade nos Jogos de Roma-1960.
Os dois nasceram no mesmo 19 de setembro de 1922 e casaram-se nesse dia em 1948.

Depois do casamento, Zatopek correu competitivamente ainda por dez anos. A despedida dele foi no Cross-country de San Sebastian, na Espanha, sua última grande vitória, aos 35 anos. Depois, ele ainda correu eventualmente como demonstração para alunos nas excursões feitas por países do bloco socialista.

Zatopek foi também um idealista. Oficial do exército da extinta Tchecoslo
váquia, chegou a tenente-coronel e manteve muito prestígio no Partido Comunista Theco. Mas caiu em desgraça em 1968, quando apoiou a Primavera de Praga, contra a ocupação soviética. Ele foi expulso do partido e obrigado a trabalhar como lixeiro. Isso só fortaleceu o mito, porque o povo o reconhecia e o exaltava na rua. Em 1971, Zatopek recuperou o prestígio e um emprego no Instituto Tcheco de Pesquisas Geológicas.

As conquistas da Locomotiva

– 4 ouros e uma prata olímpicos
– Ouro nos 10 mil e prata nos 5.000 m, em Londres-1948
– Ouro nos 5.000, 10 mil e na maratona, em Helsinque-1952
– 38 vitórias consecutivas dos 10 mil metros,entre 1948 e 1954
– 11 vitórias nos 10 mil só em 1949
– 18 recordes mundiais em provas de 5.000 a 30 mil metros
– Primeiro homem a correr 10 mil abaixo dos 29 minutos
– Primeiro homem a correr 20 mil abaixo de uma hora

* Fonte: Revista O2 – Edição 37 – Maio de 2006

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