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A história do velódromo na Consolação, em São Paulo

Foto: Arquivo Público do Estado de São Paulo

Um grande centro urbano perde um velódromo, o que representa um golpe duro para o ciclismo de pista brasileiro. E não se trata de um fato ocorrido em 2013, a demolição da estrutura que recebeu as provas da modalidade durante os Jogos Pan-Americanos de 2007 por não se adequar às exigências da União Ciclística Internacional para os Jogos Olímpicos de 2016. O ciclismo de pista perde espaços que lhe são caros desde 1900, quando o Club Athlético Paulistano foi fundado, e passou a utilizar as dependências do Velódromo Paulista, transformado em sede da agremiação. No mesmo local, que passou a ser chamado de Estádio do Velódromo, o futebol paulista deu boa parte de seus importantes primeiros passos. O crescimento do interesse pelo jogo bretão concorreu para o esmagamento da popularidade do esporte das bicicletas, que chegou a ser significativo no final do século XIX e início do XX.

Muita gente lamentou o incêndio que destruiu boa parte do Teatro Cultura Artística, situado na Rua Nestor Pestana, no centro de São Paulo, em 2008. Poucos habitantes da cidade sabem que, naquele local, em 1895, foi inaugurado o Velódromo Paulista, com uma pista original de saibro.

A iniciativa de construção coube ao conselheiro Antonio da Silva Prado, um dos responsáveis, ao lado do cunhado Elias Pacheco Chaves, pelo loteamento de chácaras que deram origem aos bairros de Campos Elíseos e Barra Funda. O velódromo foi construído dentro dos limites da antiga chácara de dona Veridiana Prado. Provavelmente, Prado autorizou a construção do equipamento esportivo para atender a um desejo dos filhos. A elite paulistana provavelmente tomou contato com bicicletas, à época caríssimas, em Paris.

 

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O nascimento do ciclismo na Europa, a introdução da modalidade no Brasil, com foco em São Paulo, a construção do velódromo na Consolação e a ascensão do futebol são abordados em “A Bola Rolou – o Velódromo Paulista e os espetáculos de futebol 1895-1916”, trabalho assinado por Wilson Gambeta, publicado no ano passado (2015) pela editora do Sesi.

O estudo desses primeiros anos do ciclismo em São Paulo é particularmente interessante no momento em que o Rio recebe a Olimpíada. A perda de um espaço que pertencia ao ciclismo ajuda a compreender o insucesso do Brasil nas tradicionalíssimas provas de ciclismo de pista, que integram a programação dos Jogos Olímpicos da Era Moderna desde sua primeira edição, Atenas-1896.

Gambeta atesta que o ciclismo no Brasil nunca alcançou sucesso, em número de praticantes e popularidade, similar ao observado na França, o berço da modalidade. O futebol, em seus primeiros anos de Brasil, praticado sobretudo por trabalhadores ingleses ligados a negócios britânicos no país, alcançou um sucesso tão grande a ponto de esmagar o esporte das bicicletas, tomando-lhe inclusive seus palcos de excelência, os velódromos.

Três velódromos em São Paulo

A capital paulista chegou a ter três velódromos: o Bois de Bologne, situado na Chácara da Floresta, onde seria construído posteriormente o Estádio da Associação Athletica das Palmeiras e mais tarde assumido pelo São Paulo Futebol Clube, e o Coliseo Festa Alegre, na Penha, que desapareceu sem deixar vestígios. Além, é claro, do Velódromo Paulista.

A derrocada do ciclismo não se restringiu à capital paulista. Em Santos, o velódromo Coliseu Santista foi modificado para funcionar como teatro. Os velódromos de Taubaté, Sorocaba e Rio Claro (cujo mais conhecido clube de futebol, o Velo Clube, tem sua origem ligada ao ciclismo) também sumiram do mapa.

Em sua curta vida, o Velódromo Paulista recebeu elogios até mesmo de jornalistas que vivenciavam o ambiente europeu de disputas ciclísticas. Gambeta reproduziu trecho do texto do inglês W. Roberts, intitulado “São Paulo (Brazil): impressões e croquis de um viajante”, publicado na Revista Moderna, editada no Rio de Janeiro, em 1898.

“O Velódromo Paulista, de recente criação, é em todo seu conjunto, uma das mais bem acabadas pistas velocipedicas,   rivalizando com a que temos visto em França e na Inglaterra. Em ponto menor, pode-se comparar, sem nenhuma pretensão, ao velódromo do Parc des Princes, em Paris, e ao de Brighton, perto de Londres, quer pela disposição geral das construções, quer pelo estilo leve e gracioso das arquibancadas ou tribunas”, escreveu Roberts.

Comentários de um jornalista na época descreviam as arquibancadas como elegantes e “bastante confortáveis”. Calcula-se que podiam receber entre 800 e 1.000 espectadores. Somando-se aos espectadores em pé, deveriam caber 4 mil ao todo.

Nem mesmo o ciclista Fernando Louro, que representou o Brasil em provas de pista nos Jogos Olímpicos de 1980, 1988 e 1992, sabia da existência do velódromo na Consolação.

“Eu sei que houve um velódromo no Constâncio Vaz Guimarães, perto do ginásio do Ibirapuera. Não me lembro de ouvir comentário sobre a existência de um na região da Consolação”, disse o medalhista de Jogos Pan-Americanos, que é cria de um velódromo hoje em lastimável estado de conservação, o da Universidade de São Paulo.

Ciclismo e as apostas

Wilson Gambeta, graduado em História (1981) e em Filosofia (1993) pela Universidade de São Paulo, mestrado (1989) e doutorado (2014) em História Social também pela Universidade de São Paulo, hoje é pesquisador do Ludens: Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas sobre Futebol e Modalidades Lúdicas. Procurado pela reportagem, não foi localizado.

O pesquisador, que fez amplo trabalho alicerçado em documentos e reportagens publicadas na época, traça um quadro de ascensão e queda do ciclismo que se relaciona às apostas.

Um dos motivos que empurraram o esporte das bicicletas para cima foi a montagem de um sistema de exploração de prognósticos a dinheiro, similar ao do turfe. Com o passar do tempo, suspeitas de manipulação dos resultados, a fim de beneficiar interesses escusos, foram publicadas no jornal O Estado de S. Paulo e em outros veículos.

Seguem trechos do livro de Gambeta:

“A memória das carreiras de bicicleta quase se apagou, pois a moda amadora repudiou os antigos espetáculos com apostas (…)”

“Não foram encontrados depoimentos de ex-ciclistas que descrevessem as disputas acontecidas na raia da Consolação. Nas raríssimas vezes em que os antigos participantes tocaram no assunto em recordações, mesmo os amadores, jamais deixaram claro que os páreos ocorriam sob os gritos e aplausos dos espectadores. Outros, surpreendentemente, chegaram a atribuir o ambiente de apostas que existiu no velódromo da Consolação aos italianos”

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