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O medo do corredor diante das trilhas

A montanha sempre causou fascínio nos homens. Foi lá que nasceu o trail run e de onde se espalhou por todo o ambiente outdoor. As trilhas, em seu ambiente bruto, encantam com suas paisagens bucólicas, desafiadoras, belas e até românticas. Por trás das imagens pictóricas esplêndidas que revelam apenas suas belezas, a natureza em estado bruto nos ensina que a imagem pode ser só “canto de sereia”.

Além da beleza imaginária e intangível está a verdadeira face do ambiente outdoor. Naquela fotografia magnífica não é possível sentir o vento cortante. Naquela fotografia esplêndida não é perceptível o frio glacial. Naquela fotografia maravilhosa não há a dor de encostar no espinho de uma bela flor.

O perigo invisível, o medo do desconhecido, a ida sem volta, o perigo contido em uma corrida de trilha, seja um simples treino, seja uma competição de classe mundial, fazem dessa corrida um desafio pessoal que engloba desde a alegria de, sorrindo, molhar os pés num riacho até a escuridão aterrorizadora. Na trilha se vai do céu ao inferno em questão de segundos. A natureza é a senhora da razão: é ela quem dita. A nós, cabem apenas resignação e respeito.

Diferente de corridas no asfalto, na trilha a desistência pode ser pior que continuar. O corredor não consegue parar em um ponto do trajeto, arrancar o número de peito e dizer: “Desisto. Vou pra casa”. No meio da trilha, a renúncia oferece três alternativas, e todas elas cobram preços altos. Voltar tudo que correu, de volta à largada; avançar até o próximo posto de controle; ou esperar o socorro que pode demorar horas ou dias para chegar.

A depender do local, a espera pode ser fatal pelas condições climáticas. Pode ser fatal porque a ferida infeccionou. Pode ser fatal pelo enxame de abelhas, pelo bicho peçonhento, pelo ataque do puma ou do urso. Simplesmente parar e desistir, enfim, pode ser muito mais perigoso e arriscado que seguir até encontrar ajuda.

Com o notável aumento de provas de trail run ao redor do mundo — tanto em número de eventos como de novos praticantes, muitos corredores são seduzidos pelas imagens dos bucólicos percursos. Mas quando transportados para a vida real, da dureza da trilha, da dor da subida, do medo da escuridão, descortina-se a face oculta da trilha.

Ainda assim, com respeito (de novo ele) pela Mãe Natureza, os perrengues podem transformar-se em experiências fantásticas. E, a cada obstáculo superado, percebe-se a força e a dimensão dos desafios a que esses corredores se submetem.

Perdidos

Corredora em uma trilha
Roberta Palma

Ninguém sai indiferente da montanha. Se está naquela que é considerada uma das mais selvagens provas de trail do mundo, com chuva, lama, frio, neve, gelo e vento, as chances de sair mudado são imensas. Mas se está naquela que é considerada uma das mais selvagens provas de trail do mundo com chuva, lama, frio, neve, gelo, vento e se perde nas entranhas da região do Estreito de Magalhães, as chances de não apenas sair mudado, mas com uma nova perspectiva da vida, são irrefutáveis.

A parte da alta montanha da Ultra Fiord, o Cordon de Chacabuco, que, naquela quarta-feira de abril, sem seu manto branco de neve ostentava o amarelo das pedras que davam o tom, tinha ficado para trás. Assim como a metade do percurso de 50 km, distância significativa que a jornalista e corredora Roberta Palma incluiu no seu projeto de fazer 50 corridas aos 50 anos de idade. A descida de Chacabuco começava a mostrar onde estava toda a neve daquela quarta-feira. Havia derretido, descido a montanha e aumentou o volume do riacho que ela atravessava pela primeira vez. O degelo, além de aumentar os charcos com muita lama vulcânica, derrubara várias marcações do percurso.

El Salto, o primeiro posto de controle, ficara para trás no fim da tarde, logo depois que Roberta atravessara o rio que seria seu novo companheiro por horas a fio. Da alta montanha a partir de El Salto, os corredores da Ultra Fiord adentram por quilômetros em um bosque infinito aos olhos. Por quilômetros o rio desce. Seus sons, em contraste ao silêncio da mata, executam uma sinfonia ensurdecedora para os corredores que o margeiam. Neste ponto da prova, os atletas ficam, em sua grande maioria, sozinhos em uma das regiões mais inóspitas do planeta. Qualquer erro pode ser fatal.

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As luzes da headlamp (uma pequena lâmpada presa à testa dos corredores) são acesas pouco antes das 19h — a prova chega a nove horas de duração e o anoitecer começa a cobrir o Fiord. A pequena luz reflete a fita branca da marcação do percurso presa em uma árvore. Já é noite. E é a última vez que a jornalista verá qualquer marcação nas próximas 24 horas.

Ficar perdido em uma trilha que pouquíssimas pessoas no mundo atravessaram com temperaturas baixíssimas, próximas de zero, que implicam não poder parar de se movimentar para não sofrer uma hipotermia que pode ser fatal é uma situação que pode ser classificada como desesperadora. Palma, no entanto, manteve-se serena. O trail run nos ensina a enfrentar situações adversas — um modelo de sobrevivência semelhante às fases do luto. Encontramos no trail elementos da negação, da raiva, da barganha, da depressão e da aceitação.

Após visualizar a última marcação, a busca pela seguinte iniciou. Começava uma história que certamente ninguém deseja ao seu pior inimigo. A natureza se impõe como tirana. E é ela quem manda. Ficamos impotentes diante de sua força, é a nossa autonegação. A marcação seguinte não veio. Ainda fluindo na corrida, Roberta percebe que, há alguns minutos, não as vê. Caiu a ficha. A corredora solitária na província de Ultima Esperanza volta para encontrar a fita branca que lhe traria paz. Não encontrou.

Foram praticamente três horas buscando uma simples fita, um simples reflexo brilhante. Mas as headlamps só refletiam árvores de troncos brancos na imensidão do bosque gélido e negro. Ao desligar as headslamps, Palma não enxerga mais que 30 cm a sua frente. Já são 22h. A raiva ainda não se apoderara. Era hora da barganha. “Serei boa e focada e terei a solução do problema.” 

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A nova estratégia que se iniciava não era mais achar o percurso, apenas sobreviver até o dia seguinte, quando então buscaria seu caminho. Roberta abre o kit, saca os esparadrapos e marca três árvores com passos contados entre eles. Um triângulo, quiçá, buscando a energia do mundo.  Em sua cabeça, rondavam as lembranças de um corredor que nessa mesma competição morrera de frio. Precisava ser forte e não deixar o cansaço a abater: no final, caminhou mais nove horas dentro do espaço delimitado pelos esparadrapos — mesmo tendo a imensidão do mundo diante de si. São os antagonismos que a vida nos impõe e temos que aceitar.

O dia clareou e, seguindo o barulho do rio, voltou para perto de suas margens gélidas. Era hora de planejar sua sobrevivência.

Abriu sua mochila, dividiu sua alimentação em oito porções — que poderiam ser as últimas. O silêncio só cortado pelo som das águas e dos pássaros que se esquivavam pelo bosque. Mas havia algumas pegadas que lhe davam esperança.

As pegadas eram humanas, mas seus únicos contatos até aquele momento — quase 24 horas depois da largada — tinham sido com um filhote de puma e sua mãe. Vem a raiva! E, aos gritos abafados pela imensidão, sobra até para Deus, que havia lhe abandonado.

Lembranças de ensinamentos paternos, como de fazer a natureza aliada e parar de lutar contra sua força, podem ter sido a salvação de Palma. Ela seguiu o rio, que, afinal, teria de desembocar em algum lugar. resolveu atravessar para a outra margem e checar se a trilha estava ao seu lado o tempo todo. Mas não estava… Mais algumas de horas andando sem parar, movida pela força que aflora de dentro de nós.

Já são 30 horas desde a largada. Já são 20 horas sem referências. o silêncio do bosque quebrado pelo rio e pássaros ganha uma nova esperança. São sons. Sim! Som de passadas de corredores. Lá vinha o “bonde” dos líderes da prova do dia seguinte. Entre eles, Fernando Nazário. Em lados opostos do rio, o grito ecoa pelos fiordes.

“Fernando!” “É por aqui!” Se coloca nos trilhos novamente. Mais uma hora de caminhada e, finalmente, exausta, chega ao posto de controle, onde ficaria por mais um dia se recuperando. Ainda precisaria fazer mais 20 km até o final, até por falta de opção mais fácil. Mas Roberta chegaria de cabeça erguida. Como quem escapou da morte. E mais viva do que antes.

Solidariedade

Mulher fazendo trilha
Karen Kornilovicz

Quando é dado o start nos cronômetros em uma corrida em ambiente outdoor, ninguém leva em conta o que o destino, o acaso, nos reserva. É possível correr sob céu de brigadeiro. Ou ser forçado a buscar nas profundezas da alma e revelar todo um lado guerreiro, de força e fé, que até então era desconhecido, embora inato. Ele estava lá, adormecido.

A paulista Karen Kornilovicz é uma dessas, enfrentando perrengues como no Desafio das Serras, que teve largada em Ubatuba e chegada em Cunha, SP. A ideia era pernoitar no acampamento em Cunha e fazer o percurso de volta até Ubatuba no dia seguinte, totalizando 40 km.

As semanas que antecederam a prova foram de muita chuva. Karen largou com tempo relativamente bom. Mas as condições meteorológicas foram mudando durante a prova, realizada quase que totalmente nas trilhas dominadas por cipós do belíssimo Parque Estadual da Serra do Mar. O primeiro desafio da jornalista Karen foi auxiliar um corredor, o carioca Ricardo Pinto, que torceu o pé cruzando um riacho por volta do km 10. Como atleta consciente do universo trail brasileiro, Karen leva sempre consigo um kit de primeiros socorros com uma atadura para torções.

O percurso até Cunha era de uma subida insana e escorregadia (por causa da chuva) em meio à fechada vegetação da Mata Atlântica. Na trilha, acabou se juntando a outros atletas, entre eles o bombeiro Maycon Cristo, que teria papel fundamental no desafio que enfrentariam mais à frente. No meio do caminho foram surpreendidos por uma chuva torrencial, com muitos raios e trovões.

Era um passo para cima e dois para baixo, agarrando-se a raízes e galhos. A tarde caiu, a noite não demorou a chegar. Ensopados, sacaram suas headlamps. Era difícil enxergar a marcação em meio à chuva, à bruma e às árvores. A opção mais segura nas descidas era deslizar montanha abaixo amparados pelas mochilas e escorando os pés nas árvores da encosta. Ficaram sem água e sem comida.

Foram mais de oito horas caminhando, escorregando e tropeçando. Nos escassos momentos em que era possível observar o céu e as copas das árvores, a sensação era de que, finalmente, conseguiriam deixar a mata fechada. Mas era apenas uma sensação. A trilha seguia interminável. Quando a mata finalmente se abriu, a sensação foi de um tremendo alívio, afinal, já haviam percorrido mais de… 25 km? Era possível? Teria o sinal do GPS se enganado tanto assim em meio às árvores? A prova toda deveria ter 20 km. O erro, na verdade, não era do GPS, e sim da organização. Em seu primeiro dia, a prova teve 36 km, ou seja, 16 a mais. Quando os atletas chegaram ao posto de controle final, foram cortados por segurança.

E foi exatamente ali naquele PC que uma atleta do grupo começou a exibir sinais de hipotermia. Com a ajuda do bombeiro Maycon, suas roupas molhadas foram retiradas, os cobertores de emergência, desdobrados, e a corredora envolvida por um abraço coletivo para que pudesse se aquecer. Aguardaram por quase uma hora pelos carros de resgate, que começaram a fazer o percurso de ida e volta ao acampamento levando inicialmente os atletas mais debilitados e machucados.

Karen Kornilovicz ficou na última leva e desembarcou no acampamento já quase de madrugada, faminta, com sede e exausta. Por segurança, a organização decidiu alterar o percurso do segundo dia e fazê-lo apenas em Cunha. O traslado até Ubatuba seria realizado em ônibus a partir da manhã seguinte e 80% dos corredores desistiram. Kornilovicz concluiu a prova.

Foi no Desafio das Serras que compreendeu quão insignificantes somos perante a natureza. Foi lá que compreendeu sua força e que aprendeu a respeitá-la ainda mais. Foi lá que utilizou pela primeira vez o cobertor de emergência — e da forma correta: diretamente na pele e não sobre a roupa, ensina a corredora, que jamais se separa de seu kit de emergência —, que se mostrou essencial para garantir sua segurança e a das pessoas que conheceu na trilha. E que pode ter assegurado um final feliz para esta história.

Cegueira

Dois homens conversando
Harry Thomas

A prática de ultradistâncias havia chegado um ano antes. Depois de duas décadas correndo maratonas e com a performance atlética em declínio, por problemas de cada vez mais FEA (“faixa etária avançada”…), era hora de fazer um upgrade e sair da zona de conforto. Era chegada a vez de ter no cartel uma ultramaratona. Como sou apaixonado por trail run, o caminho natural seria correr uma ultratrail.

O ano que marcava meus 50 anos de idade seria o do desafio. Iria desafiar (ao menos tentar) as 100 milhas da Ultratrail do Monte Fuji, no Japão. Para tanto, era necessário somar pontos um ano antes para a classificação, o que consegui participando de duas provas no Chile, os 60K Ultratrail Putaendo e os 70K Ultratrail Torres del Paine. Como Fuji seria somente no segundo semestre, segui o conselho da melhor trail runner brasileira, Fernanda Maciel, que me disse para fazer uma prova maior. E lá fui eu me inscrever naquele trail que ia estrear no calendário mundial e se tornaria famoso por sua dificuldade, condições climáticas muito frias e ambiente totalmente selvagem: a Ultra Fiord. A distância escolhida foi 100 km.

No plano pessoal, a surdez chegara sorrateira aos 15 anos de idade, praticando esporte quando fazia aulas de natação e o tímpano furou em um mergulho. E foi surreal que, prestes a completar 50 anos de idade, estive a 1 cm de ficar cego em outro acidente esportivo — era o carma que me aguardava. Ensaio sobre a cegueira é um romance do escritor português José Saramago, de quem tomo emprestado o título. Ensaiei minha cegueira em uma manhã de sábado, no km 28 da magnífica e poderosa Ultra Fiord, na região do Estreito de Magalhães, no Chile.

Piso e afundo até o joelho na lama argilosa, me desequilibro e caio diretamente com o olho direito em um toco pontiagudo encravado no chão. Ainda de joelhos, penso que ficar surdo e cego seria um grande problema. Afinal, meus olhos são meus ouvidos. Viro para a corredora brasileira que vinha atrás de mim e o sangue jorrava do meu rosto. Olho para ela desesperada diante aquela cena, que eu não acreditava estar protagonizando.

Um corredor para em seguida e imediatamente tira gaze e tampão de olho do seu kit de primeiros socorros. o sangue estanca e penso que, apesar de tudo, tenho sorte. Afinal, estava só a 1 km de distância do checkpoint onde havia estrutura paramédica. Caminho por cerca de 500 metros ao lado do atleta que me aplicou os primeiros socorros. As meninas brasileiras de Minas Gerais, mais um chileno que vinha correndo com elas por quilômetros, se adiantam para pedir socorro. O paramédico chega e me leva até a cabana. Recebo os primeiros socorros e ali meu drop out estava consumado.

A lição deste grande susto é a decisão de jamais correr sem óculos de proteção. Aliás, o meu estava guardado dentro da mochila, pois chovia e o dia estava escuro. Jamais devemos relevar e deixar a segurança em segundo plano. Quanto às minhas deficiências, não fiquei cego e, meses depois, fiz um implante coclear. Prometi, como agradecimento à graça alcançada de não ter mais graves consequências, voltar ao Fiord todos os anos. Fiz todas as cinco edições. Faça valer a pena, diria o soldado Ryan.

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