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Treinador brasileiro passa um mês treinando com elite queniana. Veja impressões

O mundo das provas de resistência conhece bem a história dos corredores de meio-fundo e fundo quenianos, suas qualidades físicas, relação intensa e diária desde a infância com as passadas e os benefícios de viver e treinar em altas altitudes. Sabe-se, especialmente, que seu povo mais vencedor no álbum dourado dos Jogos Olímpicos e mundiais é o kalenji**, etnia que corresponde a 12% da população do país. Uma coisa, porém, é ter acesso às informações sobre os melhores corredores de fundo do planeta; outra, muito mais impactante e reveladora, é observar esses atletas ao vivo. Atleta e treinador de corrida e natação paulistano, Ademir Paulino passou quase um mês com essa elite queniana no High Altitude Training Center, na aldeia de Iten, no vale do Rift, oeste do Quênia.

Treinando e convivendo com eles, o brasileiro descobriu segredos da mente, hábitos de treinamento e da alimentação e hidratação desses corredores que parecem, realmente, de outro mundo. Observador sensível e profundo, Ademir Paulino revela em seu caderninho de impressões os elementos que forjam corredores quase imbatíveis:

Biotipo perfeito

Eles têm corpos extremamente magros e leves, em especial as pernas, muito finas. A calça apertada legging fica solta neles. O joelho é a parte mais grossa do corpo em muitos deles. A altura e o peso variam entre 1,78 metro e 1,80 metro, 56 a 58 kg. São poucos os corredores brasileiros com esse tipo físico, como o Franck Caldeira.

Anos e anos descalços

Os quenianos treinam de tênis, mas vêm de uma longa formação descalça. Em geral, o primeiro calçado que um queniano usa vem na adolescência, ou seja, correm anos e anos sem nada para proteger os pés. Não vi uma única criança com tênis no pé em Iten. Todas estavam descalças.

Terra na corrida

A corrida é o esporte mais popular no vale do Rift, berço sagrado dos maiores meio-fundistas e fundistas do planeta. Você está treinando e as crianças tentam te acompanhar um bom trecho correndo. Os corredores são a inspiração delas. Não vi ninguém jogando bola. As crianças só correm.

 

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Bugigangas quase zero

Além do tênis, eles vestem um agasalho corta-vento e uma calça legging ou de lycra. Fora isso, o único aparelho que um corredor queniano utiliza nos treinamentos é um relógio. Não usam GPS, frequencímetro, nada. No Brasil as pessoas tornam-se reféns do ritmo mostrado no GPS. Já os quenianos têm um autoconhecimento muito maior e simplesmente correm no ritmo que aguentam.

Corrida com obstáculos

O terreno de treinamento em Iten é desafiador. Eles correm em estradas de terra muito irregulares, com subidas e descidas, e com muitas pedras. Não é fácil achar um bom traçado para correr em segurança. Tive uma torção séria de tornozelo em meu último treino. Quando precisam treinar em pista de 400 metros, usam muito a de terra, em Tambach, a 5 km de Iten.
Tem muitos buracos e até grama. A única raia mais razoável é a 1. Essa pista é a que fez mais medalhistas de corridas de fundo do mundo em toda a história. A pista oficial de 400 metros, de nível mundial, que fica em Iten, é pouco usada pelos atletas. Eles preferem treinar na pista de terra de Tambach. Além da dificuldade do terreno, há ainda a altitude média de 2.400 metros, entre 2.100 e 2.700 metros.

Alimentação simples e equilibrada

Os corredores quenianos só fazem três refeições por dia. Depois de fazer em jejum o treino da manhã (usando como combustível o carboidrato do jantar), no café da manhã eles comem pão de fôrma com geleia ou mel; ovo; uma massa frita parecida com nosso bolinho de chuva; frutas e bebem café ou chá com leite. Adoram leite! Até de noite, quando estão conversando, costumam tomar leite puro.

O almoço e o jantar são parecidos. Os carboidratos vêm do macarrão, às vezes do arroz, e do ugali, espécie de massa fina de milho, semelhante à polenta. As proteínas buscam no ovo, em geral cozido, e no leite. Comem ainda feijão ou ervilha; frutas e vegetais; salada em geral de cenoura e repolho; uma sopa ou creme de mandioquinha ou mandioca, mais à noite. Carne vermelha ou frango só duas vezes por semana, no jantar. O que impressiona muito é que não tomam água durante os treinos. Eles vão para as rodagens de 16 a 18 km sem água, sem gel, sem nada!

Autoconhecimento em vez de treinadores

A elite queniana, em sua maioria, não tem um treinador. Correr é a cultura deles, por isso possuem um conhecimento técnico enorme. Eles sabem planejar com perfeição os treinos mais fortes e fracos, os dias de fazer mais subida etc.

Estratégia

Eles correm sempre em fila. Não importa se quem está na fila, como vi, é o Wilson Kipsang, ex-recordista mundial da maratona. Eles alternam quem puxa a fila. Dessa forma, aprendem a andar em qualquer posição durante uma prova.

Mestre fundador

Quem organizou e começou a “fabricar” campeões kalenji em série Iten foi o padre e treinador irlandês Col O’Connell, com seu trabalho a partir da década de 1970. Em vez de apenas correr quanto aguentavam, que era o “método” dos quenianos, O’Connell introduziu treinos intervalados, de subida, corridas longas aos sábados, entre outras coisas. Mais que treinos variados, porém, O’Connell sempre foi um mestre em trabalhar a força mental de seus pupilos. Outro detalhe: não dava a mínima para estudos e medidas como VO2 máximo e frequência de passadas. Preferia trabalhar com treinos livres, apelando ao instinto de seus atletas. Tem dado certo, como mostram as dezenas de campeões mundiais e medalhistas olímpicos que já formou, entre eles Wilson Kipketer, Sally Barsosio, Peter Rono e a estrela de hoje dos 800 metros, David Rudisha.

Treinamento

A semana de treinamento em Iten impressiona pela intensidade e quantidade absurda de ótimos corredores. Já corri muitas meias-maratonas, como as da Holanda e do Rio, em que os grupos que vão à frente, liderando, reúnem no máximo cinco a seis atletas desgarrados. Nenhuma dessas provas chega perto do que vi nos treinos no Quênia: dezenas de corredores juntos no mesmo pelotão de ponta. A semana deles é bem definida e funciona desta forma:

Segunda-feira:

  • Treino mais leve, 16 a 20 km, com muitas subidas, entre 3min40s e 3min45s por km.
  • Só alguns atletas fazem outra rodagem à tarde.

Terça-feira:

  • Treino na pista de 400 metros de terra de Tambach da manhã.
  • Intervalados (tiros) mais fortes; 20 repetições de 400 metros, mais 10 de 1.000 metros.
  • Rodagem em ritmo mais lento à tarde, 10 km.

Quarta-feira:

  • Rodagem em trajeto com muitas subidas, 16 a 18 km entre 3min40s e 3min45s por km.
  • Só alguns atletas fazem outro treino à tarde.

Quinta-feira:

  • Fatlek de 16 a 18 km de manhã, variando de 5 min forte/2min fraco em uma semana a 2 min forte/1min fraco em outra semana. Alguns atletas chegam a fazer 1min/1min, como Eliud Kipchoge, atual vencedor da Maratona de Berlim.
  • Rodagem em rimo mais lento à tarde, 10 km. 

Sexta-feira:

  • Rodagem semelhante às de segunda e quarta-feira, mas um pouco mais forte e longa, cerca de 20 km. 

Sábado:

  • Rodagem longa, 28 a 40 km, nas florestas ao lado do vale do Rift.
  • Muitos trechos de subidas, bem íngremes e longas. 

Outros treinos:

Além da corrida, os quenianos fazem um trabalho de fortalecimento das pernas e do core usando o próprio peso do corpo. Cumprem também uma rica sequência de exercícios variados de abdome, lombar, glúteo e pernas, com cerca de 20 repetições de cada um, exercícios de isometria etc.

Suadeira!

Fartlek: pauleira pura!

O dia de treino de fartlek é um dos mais impressionantes. No caminho até o local da partida, vi gente brotando de todos os lados, trotando ou correndo por uma distância de uns 6 a 7 km. Quando dá um horário certo, eles simplesmente começam a correr. Ninguém dá a largada. Acompanhei um dia esse treino filmando da garupa de uma moto e várias vezes tive de pedir para o piloto acelerar quando estávamos a 30 km/h porque os corredores estavam nos alcançando. Eram cerca de 200 caras correndo abaixo de 3 minutos por km, cada hora era um na ponta a cerca de 2min40/km. Eles vão pra fazer o quanto aguentam. Dos mil atletas que começam o treino, são uns 200 que completam os 16 km.

Selvagens!

Tive de parar de correr em meu último treino de sexta-feira com os quenianos — torci o tornozelo ao pisar em uma pedra — lá pelo km 8, quando fazia 3min48s por km. Quando parei, vi a silhueta do grupo indo embora, uma coisa linda, parecia uma manada de animais selvagens.

Força mental

Além de todas as qualidades físicas, os quenianos têm uma força mental poderosa. Nos diversos grupos de 80 a 100 corredores que treinam diariamente — incluindo cerca de 15 a 25 mulheres e também veteranos com mais de 50 anos —, eles correm juntos em um silêncio absoluto. Não se ouve uma palavra. Só o barulho dos pés tocando o chão e da respiração. O
foco e a concentração natural deles são totais. Os grupos correm tão juntos que não enxergamos o chão. Uma energia impressionante vai te levando. Eu estava receoso de tirar fotos dos atletas treinando, mas eles simplesmente não ligam. Comecei então a fotografar alguns treinos e era como se eu não estivesse ali. Eles são tão focados que era como eu fosse uma árvore.

Alegria e pobreza

Não importa se são da elite mundial ou meros habitantes da região, os quenianos são muito simpáticos e receptivos. É só você cumprimentá-los que já abrem um sorrisão. O altoastral contrasta com a pobreza ou simplicidade enorme das condições de vida em Iten e arredores. Há construções maiores só do governo ou hotéis. O resto são pequenas casinhas de madeira e banheiros ao ar livre, com cerquinhas em volta de um buraco no chão. O padrão só muda um pouco com as casas maiores, mas também simples, dos maiores nomes da elite dos corredores.

*Ademir Paulino, 39 anos, é formado em educação física e pós-graduado em treinamento desportivo e esportes aquáticos, tudo pela FMU de São Paulo. Ele tem uma assessoria esportiva e é professor de natação da Cia. Athletica. É também corredor e nadador e já foi campeão mundial de aquatlon (competição de natação e corrida). Ademir conheceu os quenianos em seu estágio no High Altitude Training Center de Iten. 

**A maioria das 93 medalhas olímpicas conquistadas por quenianos nos Jogos Olímpicos (30 de ouro) veio com corredores kalenji. Um dos poucos a ser de outra etnia é o atual bicampeão olímpico e recordista mundial dos 800 metros, David Rudisha, um massai. 

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