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Corrida e cerveja combinam? Fomos até a Beer Mile descobrir

Foto: Divulgação

Pontualmente às 11 horas da última quinta-feira, aniversário da cidade de São Paulo, uma buzina marcava o início da 11ª edição da Beer Mile Brasil, evento que mescla a corrida de rua com a paixão pela cerveja. Nos minutos seguintes, divididos em baterias, 40 participantes teriam pela frente, além do forte calor na capital paulista, 1.400 ml de cerveja e 1.600 metros de corrida.

Instantes antes de dar a largada, Rodrigo Kimura, o organizador do evento, explicava o roteiro a ser seguido. Tudo começaria com os “halterocopistas”, apelido dos corredores-bebedores, ingerindo uma lata de Anchor Orange Splash, uma cerveja lager com teor alcoólico de 5.2%, o mais rápido possível e correndo 400 metros logo em seguida. Essa sequência se repetiria quatro vezes.

Embora a Beer Mile tenha um certo ar de gincana de fraternidade americana, a esmagadora maioria dos participantes já havia passado dos 30 anos. O repórter do Ativo, apelidado de O2 pelos outros corredores-bebedores, era um dos poucos integrantes da prova que ainda não haviam alcançado as três décadas de vida.

Concentrados em frente à fachada do Empório Alto dos Pinheiros, ponto de encontro de apreciadores de cerveja que já recebeu sete edições da Beer Mile em São Paulo, os halterocopistas, que pagaram R$ 89 pela inscrição, trocavam dicas para percorrer os 1.600 metros rapidamente. Com seu inconfundível sotaque americano, David Ivy Jr., representante da cervejaria que patrocinou o evento, dizia que o segredo era “abrir a garganta” para otimizar o rendimento alcoólico. A poucos metros dali, Kimura sentenciaria a maior verdade do evento: “A terceira lata é a que separa os meninos dos homens”.

Kimura (de preto) orienta os participantes da Beer Mile

Um pouco confuso com tudo aquilo, eu me perguntava internamente se o meu pace etílico – ou seja, o tempo que eu levaria para acabar com uma cerveja – seria mais importante que o pace clássico. Dez minutos de Beer Mile me deram a resposta: se você é um cervejeiro inexperiente, nem se arrisque. Ali, o segredo do sucesso consiste em beber bem e correr com alguma rapidez, nessa ordem de importância.

O recorde brasileiro pertence a Rafael Marques, um concluinte do Ironman que, em dezembro, na edição de São Roque, no interior de São Paulo, precisou de 6min57s para beber os 1.400 ml de cerveja e correr uma milha. Rafael, entretanto, não chegou perto de Corey Bellemore, um jovem canadense que ganhou patrocínio da Adidas ao finalizar um campeonato mundial de Beer Mile em incríveis 4min34s.

 

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Integração

Assim que Kimura autorizou a largada da primeira bateria exclusivamente feminina, Maria Cristina Ferrari e Adriana Lima viraram suas latas com uma volúpia impressionante e cruzaram a esquina da rua Vupabussu rapidamente. Na terceira lata, como já estava previsto, a velocidade para beber e correr já não era a mesma. Elas cruzaram a linha de chegada juntas depois de 13min30s, um sinal de que, na Beer Mile, mais vale a integração e o espírito amistoso entre os participantes do que a tradicional competitividade das provas de corrida de rua, onde cada segundo a menos já representa uma vitória.

Ferrari, uma psiquiatra de 36 anos, era apaixonada por cerveja muito antes de ter a corrida como um hobby. Chega a gastar R$ 1.500 por mês com cervejas artesanais e fala com propriedade sobre rótulos estrangeiros. Ela começou a correr há um ano e completa 10 km em cerca de uma hora. Quando digo que na Beer Mile é mais difícil beber do que correr, ela diz que isso explica o seu bom resultado, emendando uma gargalhada logo na sequência.

“Bell Marques” e sua recompensa

Com cinco edições da Beer Mile na bagagem, Ferrari viu no evento uma oportunidade de aliar sua antiga paixão ao novo hobby saudável. “Juntei uma coisa que eu estava querendo entrar, a corrida de rua, e a minha paixão, a cerveja. Eu corri todas as edições da Beer Mile do ano passado. É muito divertido.”

Triatleta amador inscrito em um Ironman 70.3 em 2018, o professor Rafael dos Reis Vieira, de 31 anos, recorre ao seu “isotônico” preferido ao término de cada longão no fim de semana: uma garrafa de cerveja artesanal. Assim como Ferrari, ele vê a Beer Mile como uma aliança entre dois de seus mundos preferidos. “Como eu sou amador, não sinto que o álcool prejudica o meu desempenho. Se eu fosse profissional, certamente seria diferente. Melhora muito a questão da socialização entre as pessoas.”

Chamado pelos outros participantes de Bell Marques em razão da semelhança com o ex-vocalista do Chiclete com Banana, Vieira foi o homem mais rápido da Beer Mile do último dia 25, completando a jornada atlético-alcoólica em 8min58s. Na hora de subir ao pódio improvisado, ouviu dezenas de gritos de “Bell Marques! Bell Marques!” e ganhou uma caixa da cerveja do evento.

A minha experiência na Beer Mile

Ver Fabiana, uma morena de seus 30 e poucos anos, sofrendo para virar a primeira cerveja e fazendo expressões de sofrimento na lata seguinte me fez pensar se participar da Beer Mile seria uma boa ideia.

A expressão de sofrimento de Fabiana (à esquerda) me fez repensar a participação na Beer Mile

Logo depois de dizer a Kimura que eu apenas observaria o restante dos participantes para escrever esta reportagem, fui intimado por Maria Cristina, a psiquiatra que sabe tudo de cerveja, e outras duas mulheres a beber e correr. “Como você não vai participar?!”, me disseram, com certa indignação. Foi o empurrão moral que eu, mesmo com um receio enorme de passar mal e estragar o feriado antes do relógio marcar meio-dia, precisava para confirmar minha participação.

Dois dos participantes da minha bateria viraram a primeira cerveja em cerca de dez segundos e, para provar que haviam terminado a lata, despejaram as últimas gotas sobre a cabeça – um ritual comum entre os halterocopistas. Alguns segundos depois, decidi repetir o gesto.

Os primeiros 400 metros são relativamente fáceis para quem costuma beber e correr – ainda que não faça as duas atividades simultaneamente. Os problemas começam a aparecer depois da segunda lata, ingerida já com alguma dificuldade. O gás da bebida, aliado aos movimentos da corrida, traz uma sensação desconfortável de estufamento. Com metade do trajeto concluído, eu já me sentia como se estivesse correndo com um barril de chope dentro de mim.

A terceira lata, aquela que separa os meninos dos homens, me provou que, nesta modalidade, estou mais para a categoria infanto-juvenil do que para profissional. “Vai, O2! Vira isso logo e distribui umas inscrições de prova para a galera”, gritaram, enquanto eu bebia aos trancos e barrancos. Em tom de brincadeira, eu respondi que daria inscrições a quem me ajudasse a finalizar a maldita da terceira lata. As simpáticas Maiara e Kátia, em um gesto solidário, deram os goles finais e me liberaram para a última volta.

Levemente trôpego e com medo de passar mal, decidi não correr nos primeiros 50 metros da volta derradeira. Ao perceber que meu estômago, dentro do possível, estava sob controle, corri e ultrapassei dois participantes que bebiam melhor do que corriam.

Incentivado pelos outros halterocopistas, passei pelo “ponto de hidratação” – dois isopores grandes posicionados na entrada do Empório Alto dos Pinheiros – pela última vez. Talvez fosse a graduação alcoólica da cerveja se manifestando, mas o clima entre as pessoas era bom no momento em que eu concluí os 400 metros finais. Como prêmio, recebi aplausos e um abridor de cerveja em forma de medalha.

Terminei o desafio em 16min02s e sem a impressão de que a Beer Mile é um programa de índio. Diferentemente das provas de corrida de rua comuns, os participantes permaneceram no local por horas a fio após o término das baterias.

Se você gosta de beber, correr e socializar, vale a pena encarar ao menos uma vez na vida a desconfortável sensação de correr com o estômago embrulhado. Na pior das hipóteses, terá uma história para contar aos amigos.

Missão cumprida: depois da Beer Mile, o repórter (à esquerda) pôde voltar a beber cerveja sem pressa

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