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Coletores e corredores: as histórias de quem corre atrás do caminhão para viver

Foto: Pedro Lopes/Ativo

Minutos depois de concluir uma seletiva para a São Silvestre em primeiro lugar, Johnatas de Oliveira Cruz, de 26 anos, explica seus segredos para manter um pace na casa dos 3 min/km nas provas que disputa.

Enquanto ajeita a viseira branca e o número de peito, ele conta que a alta rodagem do dia a dia é fundamental para lhe garantir tempos rápidos.

Embora as roupas e o discurso sejam semelhantes ao de um corredor profissional, Johnatas não se dedica exclusivamente ao esporte.

A alta rodagem do dia a dia vem dos mais de 10 km que ele percorre diariamente na zona leste de São Paulo e faz parte do ofício que assegura os R$ 1.381,46 de seu sustento: coletor da EcoUrbis, uma das duas empresas que recolhem lixo na capital paulista.

Coletor há cinco anos, o mineiro era um dos mais jovens na seletiva e, assim como os companheiros, relaciona sua função na EcoUrbis ao sucesso na corrida.

“Eu me dedico ao atletismo. Treino todos os dias. E este trabalho me ajuda bastante. Para ser atleta, entra o trabalho de treino e de [fortalecimento na] academia. É aí que somos auxiliados pela coleta. Carregar um certo volume de peso todos os dias acaba ajudando”, diz.

Seu colega, Ivanildo Dias de Souza, de 38 anos, é ainda mais experiente – tem 21 anos de corrida “nas costas”.

Nascido em Monte Santo, cidade baiana localizada a 350 km de Salvador, ele descobriu no trabalho a sua vocação para o esporte.

Em 2005, sem nunca ter treinado, causou espanto nos colegas ao correr 6 km em 19 minutos em uma prova da EcoUrbis. Ouviu que tinha talento sobre o asfalto e transformou o que era um instrumento de trabalho em um estilo de vida.

Da esquerda para a direita: Ivanildo, Orlando, Ivan e Johnatas

A paixão pela corrida torna a rotina de Ivanildo ainda mais desgastante. Das 18h10 às 2h, ele participa da coleta de lixo na zona leste – jornada que diz “tirar de letra”.

Seu bom humor na madrugada só vai embora nos dias em que o caminhão de lixo quebra por algum problema mecânico, diminuindo suas poucas horas de sono.

Às 8h, Ivanildo já está acordado para treinar no Parque do Carmo ou no Parque Ecológico.

“É cansativo quando saio da coleta, durmo só uma hora e já vou para uma prova no domingo. Quando não dá tempo de dormir, só vou em casa, boto uma roupa e saio para correr”, afirma.

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Ivanildo se empolga ao falar de seus feitos no esporte que descobriu por acaso.

Cita com orgulho os seus melhores tempos: 47 minutos na São Silvestre, 29 minutos nos 10 km, maratona em 2h30 e 14min30s nos 5 mil metros.

O bom desempenho no asfalto chamou a atenção de patrocinadores. Além de ganhar material esportivo de uma grande empresa americana, a Under Armour, ele recebe um apoio de R$ 1.800 mensais – R$ 1.500 de um shopping de Itaquera e R$ 300 extras da própria EcoUrbis.

“Consegui apoio depois de 12 anos. Se eu tivesse alcançado lá atrás a ajudinha que tenho hoje, talvez seguisse só com a corrida”, reflete.

Transformando vidas

Um dos 19 coletores que tiveram as inscrições custeadas pela EcoUrbis na São Silvestre é Ivan Dias de Souza, cujo destino foi modificado por Ivanildo, seu irmão.

O alcoolismo quase fez com que Ivan fosse abandonado pela família. Há dez anos trabalhando na EcoUrbis, ele largou os antigos vícios para ganhar fôlego na corrida e se reaproximar dos parentes.

“Minha vida era só descontrole. Quase perdi a minha família. Eu fumava dois maços de cigarro por dia, fora as cachaças que bebia. Como já estava no esporte, fui diminuindo a bebida e parei de fumar”, lembra.

“Eu tenho orgulho de falar do meu irmão. Ele bebia muito, quebrava as coisas dentro de casa. Comecei a levá-lo para os treinos. Agora, todo ano ele se classifica nesta seletiva”, acrescenta Ivanildo.

A vida do irmão não é a única que Ivanildo transformou. O dinheiro embolsado com os pódios nas competições que disputa despertou no coletor a vontade de organizar uma prova de corrida em sua terra-natal.

Todos os anos, ele tira uma quantia do próprio bolso para organizar uma corrida para 300 pessoas em Monte Santo, cidade com pouco mais de 50 mil habitantes.

A iniciativa já rendeu algumas broncas da esposa, que preferia que Ivanildo investisse em eletrodomésticos ou outros produtos para casa.

“Minha mulher me cobra isso aí”, conta, rindo. “Eu tive uma vida difícil, então penso na molecadinha. A terra não dá dinheiro. Eu vim com 14 anos de idade para São Paulo, passei por muita dificuldade. Quando fui subindo nas provas e ganhando uma premiaçãozinha, resolvi dar esse presente para a minha cidade.”

Orlando disse ‘não’ ao atletismo

Orlando Dias de Lima, da unidade sul da EcoUrbis, desenvolveu interesse pela corrida há 18 anos, quando sua filha nasceu.

O dinheiro de sua primeira premiação foi destinado à compra do enxoval da filha.

Não fosse pela família, Orlando talvez tivesse seguido carreira no esporte profissional.

Observado por representantes do clube de atletismo BM&FBovespa no Parque Ibirapuera, ele balançou quando recebeu uma proposta para se dedicar integralmente aos treinos e provas.

A proposta de R$ 500 mensais, no entanto, era insuficiente para cobrir seus gastos familiares.

Como não havia nenhuma garantia de estabilidade no atletismo, preferiu continuar na coleta.

Na primeira vez em que percorreu 42 km na vida, em 2003, registrou a marca de 2h25min na Maratona de São Paulo. P

assados 14 anos, ele continua veloz no asfalto e finalizou a seletiva em 15min15s, assegurando seu “passe livre” na São Silvestre.

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