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Yuki Kawauchi: o melhor maratonista amador do mundo

Yuki Kawauchi é um caso a ser estudado. Este japonês franzino de 30 anos passou a ser encarado como um fenômeno do atletismo depois de correr a Maratona de Tóquio de 2011 em 2h08min37s, 1 minuto e 2 segundos depois de o etíope Hailu Mekonnen cruzar a linha de chegada em primeiro. Compatível com o desempenho de alguns dos fundistas africanos mais velozes do planeta, aquela marca causou espanto pelo fato de Kawauchi ser um corredor amador. Não um corredor amador qualquer, mas sim o melhor maratonista amador do mundo.

Enquanto a rotina de um fundista de elite se resume a rodar altas quilometragens, descansar e seguir uma dieta balanceada, Kawauchi se divide entre a vida de corredor e as suas obrigações como funcionário público no Japão. De segunda a sexta-feira, das 12h45 às 21h15, ele trabalha no setor administrativo de uma escola da província de Saitama. Mas como sobra tempo para se preparar para competir com os maratonistas de elite?

“Diferentemente de outros corredores de alto nível, eu treino só uma vez por dia durante a semana. Antes de trabalhar, corro de 90 a 120 minutos. A minha distância mensal percorrida vai de 600 a 700 km. Dos cinco dias da semana, faço quatro treinos de corrida e uma sessão de intervalados. Como não posso treinar muito de segunda a sexta, aproveito os fins de semana que tenho livres para treinar em grande quantidade e com qualidade em trilhas, equilibrando o treino e o trabalho”, explicou o japonês à O2.

Mesmo com a rotina apertada e a quilometragem inferior aos seus principais concorrentes nas competições, ele disputa um número altíssimo de maratonas durante o ano. Os fundistas mais badalados do mundo dificilmente ultrapassam três provas de 42 km em uma temporada.

Médicos e treinadores recomendam que, depois da conclusão de uma maratona, o corredor diminua o ritmo na corrida por até três semanas, até que desapareçam as dores nas articulações. Yuki Kawauchi foge à regra. Em 2014 e 2015, foram 26 participações em maratonas — 13 em cada ano. Em 2016, esteve em nove competições de longa distância.

“Mas este é apenas o número de maratonas completas. Se você quiser incluir outras meias-maratonas e o Ekiden (tradicional prova de revezamento no Japão), chego a participar de 30 a 45 corridas em um ano”, frisou.

E a quantidade de provas concluídas não faz com que seus tempos nas competições que disputa piorem. No início de agosto, ele desembarcou na Inglaterra para correr a décima das 12 maratonas que planejou para 2017. Não seria uma maratona qualquer. A prova em questão integrava o Mundial de Atletismo de Londres, na qual competiria com os quenianos Geoffrey Kirui e Daniel Wanjiru, além do etíope Tamirat Tola. Kawauchi terminou como o nono mais rápido, com a marca de 2h12min19s.

Em setembro, venceu a Maratona de Oslo, na Noruega, com o tempo de 2h15min57s, alcançando seu 27º triunfo em provas de 42 km e a 70ª marca inferior a 2h20min.

O japonês acredita que o fato de treinar menos que os profissionais o livra de lesões graves. Outra arma poderosa para aliviar o desgaste brutal ao qual submete seu corpo com tantas maratonas vem da cultura oriental: a acupuntura. “Após uma corrida ou um treino puxado, faço um tratamento em águas termais e recorro às agulhas, tentando me livrar da fadiga. Se eu sentir muita dor, ajusto o meu treino para não ficar contundido por um longo período.”

 

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Yuki Kawauchi, o “antiprofissional”

Terminar a Maratona de Tóquio em 2h08min37s em 2011 foi um divisor de águas na vida de Kawauchi. A imprensa local queria saber mais sobre a personalidade daquele jovem de apenas 23 anos avesso aos holofotes, e entender como um amador poderia ser o japonês mais rápido na principal corrida realizada no país.

O assédio não parou por aí. Empresas esportivas, alimentícias e de bebidas o procuraram oferecendo patrocínios. Aquele seria o momento do salto do amadorismo para o profissionalismo, mas Kawauchi preferiu seguir como funcionário público e recusou o dinheiro dos patrocinadores.

“Vários patrocinadores quiseram me apoiar. Como funcionários públicos do Japão não podem ter um segundo emprego sem permissão, não podemos aceitar as propostas de patrocinadores. Eu gostaria que corredores que realmente precisam de apoio financeiro recebessem esse tipo de ajuda. Eu não tenho esse problema. Seria mais interessante se eles recebessem esse suporte”, afirmou.

Yuki Kawauchi é uma espécie de lobo solitário das maratonas internacionais. Dispensa grandes estafes e faz questão de viajar sem treinador — uma forma de correr quando, como e onde bem entende.

“Eu sempre quis praticar livremente as minhas corridas, sem ser obrigado por um técnico, por exemplo. Comecei no atletismo aos 6 anos, encorajado pelos meus pais, e tive alguém me guiando durante a escola, o colegial e a faculdade. Aos 23 anos, ao me tornar totalmente independente, pensei em me divertir e me fortalecer por conta própria. Como não queria me tornar profissional, não estava insatisfeito com as minhas condições de treino. Conseguia conciliar a rotina e vi que minha performance melhorava”, contou.

Kawauchi calcula que gasta cerca de  1.000 euros por ano (aproximadamente R$ 3.800) com pares de tênis e massagens. Suas despesas com viagens, hotéis e inscrições, no entanto, são custeadas pelas organizações das provas que disputa pelo mundo. Como não fala inglês, o japonês conta com o auxílio de Brett Larner, um canadense radicado no Japão e entusiasta do universo das corridas, para auxiliá-lo nas burocracias de viagens e nos contatos com organizadores.

“Meu hobby é viajar. Poder combinar uma viagem a passeio com uma maratona é ótimo. Estou muito satisfeito por ter a chance de participar como corredor convidado em provas ao redor do mundo.”

Não se engane pelo discurso aparentemente descompromissado de corredor-turista. Kawauchi, a exemplo de tantos outros profissionais do mundo, é bastante competitivo e vai ao seu limite físico nas provas. É comum vê-lo com uma expressão de sofrimento na reta final das competições. O esforço extremo o levou ao hospital em quatro das cinco primeiras maratonas que correu.

Inspiração verde e amarela

Livre de lesões e feliz com a “vida dupla” que leva, Yuki Kawauchi não decidiu quando deixará de correr maratonas pelo mundo. O japonês completa 31 anos em março e se espelha em outros grandes maratonistas para continuar correndo pelo mundo.

Um deles é o brasileiro Marilson Gomes dos Santos, bicampeão da Maratona de Nova York e tricampeão da São Silvestre. O fundista brasiliense se aposentou aos 39 anos, após os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro.

“Eu acho que ainda tenho pelo menos uns cinco anos [de corrida em alto nível] pela frente. Mesmo após os 35 anos de idade, existem muitos corredores detentores de recordes mundiais correndo maratonas em alto nível. Meb Keflezighi, dos Estados Unidos, e Marilson são inspirações para mim. Aqui no Japão, Ishikawa Suhuhiro, aos 36 anos, foi com o time japonês ao Brasil para disputar as Olimpíadas do Rio. Eu ainda tenho 30 anos. Está muito cedo para sentir os limites da idade”, disse.

Com pelo menos mais cinco anos rodando por grandes maratonas internacionais, Yuki Kawauchi segue contrariando a lógica e reescrevendo as leis do esporte.

“Ainda tenho vários objetivos a serem alcançados, como correr maratonas que não disputei e melhorar meus recordes pessoais. Gostaria de poder continuar desfrutando dessas maratonas e desses objetivos para sempre.” 

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