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Daniel Chaves, a linha de chegada fica além da ponte

Foto: Acervo Pessoal

Se existe um paraíso na terra para quem gosta de correr, é Boulder, cidade localizada na base das Rocky Mountains, no estado do Colorado, Estados Unidos. Quem botou no mapa da corrida essa cidade, que se ergue a 1.655 metros do nível do mar, foi Frank Shorter. Considerado o pai do running moderno, ele passou a viver ali em 1970, porque era a única localidade norte-americana com uma pista indoor a mais de 1.500 metros do nível do mar. Quase 50 anos depois, a cidade abriga o brasileiro Daniel Chaves.

Em 1972, Shorter provou que a escolha havia sido certeira: venceu a maratona dos Jogos Olímpicos de Munique, façanha que popularizou a corrida nos Estados Unidos. Desde então, vários ídolos do esporte adotaram o local como base para preparação, como o mexicano Arturo Barrios, primeiro homem a correr uma meia-maratona abaixo de uma hora, o ultramaratonista Scott Jurek e Kara Goucher. A cidade foi reconhecida pela revista National Geographic como “a mais feliz” dos Estados Unidos. Trata-se de uma das três cidades do país com mais alto IDH (Índice de Desenvolvimento Humano).

É de Boulder que Daniel Chaves concedeu, por telefone, as entrevistas que embasam o perfil da (ainda, aos 31 anos) maior promessa do Brasil nas provas de fundo do atletismo. “Adoro trocar alguns treinos de corrida por pedaladas pelos arredores da cidade. Molho meus pés na água de degelo que vem das montanhas e faço uma crioterapia natural. Vejo vários jovens da Universidade do Colorado meditando e faço isso também, é uma massagem para o espírito. Adoro correr em contato com a natureza. Por isso é que me faz bem estar aqui.”

Chaves foi ao paraíso da corrida sem ter tido que morrer primeiro. Chegou perto. O aparentemente feliz corredor de hoje esteve prestes a consumar uma tentativa de suicídio, no início do ano passado.

Bem longe de Boulder, Chaves subiu a mureta de uma ponte de Brasília decidido a dar cabo de sua existência. “Isso aconteceu num dia em que nada fazia sentido. Tinha entrado no mundo das drogas e tudo era muito vazio para mim. Pensei comigo: ‘Vou terminar este episódio e encontrarei a luz em outro plano’.”

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Foi então que ocorreu algo que não é incomum entre aqueles que ensaiam uma tentativa de suicídio: um chamado à razão. “Muita gente que está prestes a se suicidar tem um insight, uns 10 segundos de clareza. A gente pode chamar de sopro divino. É uma descarga de adrenalina que te faz voltar a raciocinar. Percebi que tinha algumas coisas a cumprir neste plano. Deus me deu esse dom de correr e devo aproveitá-lo. Hoje, com ajuda médica, consegui superar aquele quadro de depressão. Sou grato por aquele episódio, ele me ensinou muita coisa”.

Aos 28 anos de idade, Daniel Chaves da Silva decidiu encerrar a carreira. A frustração por não ter conseguido alcançar o índice para os Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, foi muito lesiva. O corredor havia planejado registrar o tempo que lhe daria a vaga em Roterdã, na Holanda, em 2015, mas faltou-lhe reidratação. Quando chegava aos postos, via um monte de garrafinhas derrubadas. “Fiquei sem hidratação no km 5, no 10 e no 15. Quando cheguei ao 20, no desespero, peguei a de um amigo holandês.” O efeito, no entanto, foi terrível: o preparado do colega continha frutose. “Meu corpo não reage bem a essa substância, e no km 21 tive que ir ao banheiro. Isso acabou com as minhas chances de índice.”

Esse é um aspecto da organização mal trabalhado em algumas provas. “Em Roterdã, as mesas eram muito pequenas. Os corredores africanos, que estavam no primeiro pelotão, pegaram suas garrafas às pressas e acabaram derrubando as dos outros”, queixa-se Daniel. “Depois corri em Valência e em Londres e encontrei uma organização muito melhor. Não perdi nenhuma garrafinha nessas duas provas.”

No primeiro semestre de 2016, Daniel ainda teve uma derradeira oportunidade de competir no Rio: foi contratado como coelho pela organização da maratona de Düsseldorf, na Alemanha. Como outros coelhos tiveram problemas físicos, o brasileiro teve que continuar correndo até o km 35, atendendo a súplicas do organizador da prova, que precisava de seu serviço para puxar um corredor alemão que planejava obter o índice para o Rio. Por estar bem, Daniel até criou a expectativa de que poderia ir até a linha de chegada, e com o sonhado índice, mas foi mera ilusão.

“Faltou treino específico para a maratona. Só consegui correr mais 2 km. Travei e não conseguia ir nem para a frente, nem para trás, nem para os lados.” Sem a vaga olímpica, o corredor perdeu o patrocínio da Puma e também foi dispensado do Programa de Alto Rendimento das Forças Armadas (Paar), que lhe rendia um soldo de terceiro sargento (hoje pouco mais de R$ 4.400). Sem um ganha-pão, encerrou a carreira e foi trabalhar numa consultoria esportiva de Brasília. Longe das pistas, engordou 8 kg, e a depressão quase o levou à morte.

As frustrações interromperam uma carreira bonita. Muito magro na adolescência, Daniel não imaginava que pudesse levar jeito para a corrida. Foi então que, acompanhando a São Silvestre pela TV, o estudante se encantou com o magérrimo Paul Tergat “empurrando o asfalto” da Brigadeiro Luiz Antônio com toda a força, como se diz na gíria da corrida.

No dia seguinte, motivado, desafiou as ruas de sua Petrópolis natal, mas não resistiu a quatro quarteirões. A corrida foi reinserida no cotidiano de Daniel por necessidade. “Minha história se parece um pouco com a dos quenianos, que vão correndo para a escola. Eu estudava a 5 km de casa. Sou de família humilde e não tinha dinheiro para a condução todos os dias. Aí eu corria.” E como corria. Na volta, Daniel apertava ainda mais o ritmo, ignorando uma subida que se apresentava no meio do percurso. A pressa, explicou, era para chegar a tempo de ver os gols do Palmeiras no Globo Esporte.

Sentindo que levava jeito para a coisa, Daniel começou a treinar na equipe Pé-de-Vento, sediada em Petrópolis e comandada pelo doutor em medicina ortomolecular Henrique Vianna. Pelas mãos do médico e corredor passaram nomes como Ronaldo da Costa (mineiro que fez a melhor marca do mundo na maratona), Franck Caldeira (campeão da São Silvestre de 2006 e dos Jogos Pan-Americanos de 2007), Luiz Antônio dos Santos (único brasileiro a medalhar numa maratona do Mundial de Atletismo, com o bronze de Gotemburgo 1995), Giovani dos Santos e Altobeli Santos da Silva.

“O Daniel foi um dos atletas que mais chamaram minha atenção em toda a minha carreira de treinador. Quando ele chegou aqui (a poucos meses de completar 13 anos), a marca dele nos 10.000 metros era 34min37s. Em um mês, esse tempo caiu para 33 e pouco”, lembra o treinador Vianna. “Ele ficou feliz da vida, numa alegria… fiquei até com pena dele, porque 33 minutos não é nada. Mas ele estava certo, valorizou aquela evolução. Seis meses depois conseguiu uma marca espantosa: 30min06s. Ele era juvenil ainda, tinha uns 17 anos, e esse tempo o botou no Mundial Juvenil de 2006, na China. Hoje isso é suficiente para ganhar qualquer prova no Brasil.”

O desempenho chamou a atenção da equipe BM&F, então a principal equipe do País. Convite feito, convite aceito. Era a hora de correr sob orientação de Ricardo D’Angelo, treinador de ninguém menos do que Vanderlei Cordeiro de Lima, bronze na maratona olímpica de Atenas 2004. Se Vianna ficou impressionado, D’Angelo também se empolgou. “O Ricardo tinha como certo que eu faria algo grande na carreira, apostava nisso, e pude acreditar também, quem sabe uma medalha olímpica…”, diz o próprio Daniel. Os contatos ampliaram seu mundo. Vanderlei era agenciado pela Global Sport Communications, empresa com sede em Amsterdã. Não tardaram convites dos holandeses para que Daniel passasse temporadas de três meses por semestre na terra das tulipas, treinando com feras quenianas e etíopes.

Daniel poderia ter se acomodado com os bons salários da BM&F e colecionado prêmios em provas nacionais com adversários de nível inferior, sob a batuta de um treinador que em tese conhecia o caminho que leva ao pódio olímpico. Mas resolveu dar outra cartada. “Rompi o processo. Não tive a paciência de esperar. Acho que o Ricardo sabia como fazer, mas, por causa da minha imaturidade, não acreditei em mim mesmo naquele momento.” Daniel deixou a BM&F. Em 2013, assinou com o Esporte Clube Cruzeiro e continuou fazendo seus estágios na Holanda. Nessa época, já treinava sob a orientação de Jorge Luís da Silva, que conhecera nos tempos do Pé-de-Vento. Jorginho era auxiliar de Henrique Vianna.

O NN Running Team, equipe da Global, é de assustar. Corredores de elite que fazem ou já fizeram parte do grupo: Eliud Kipchoge (primeiro homem a correr os 42.195 metros em menos de 2 horas), Kenenisa Bekele (dono de três medalhas olímpicas de ouro e uma de prata nos 10.000 e 5.000 metros) e Geoffrey Kamworor (tricampeão do Mundial da World Athletics de Meia-maratona), entre outros.

Enquanto ainda se desenvolvia como fundista, Daniel chegou a ser vice-campeão brasileiro por três vezes na pista. Nas maratonas, desempenhou por três vezes o papel de coelho em Amsterdã. “Levei muita pancada na Europa. Em várias provas, cheguei em 10º, 15º, 20º, e com marcas que poderiam ter me dado a vitória em provas do Brasil. Mas essas dificuldades me deram bagagem, forjaram o meu caráter, construíram o corredor que sou hoje. Se tivesse ficado no Brasil, teria feito bate-saco”, diz o corredor, empregando uma gíria que significa amealhar prêmios em diversas provas menores, caminho escolhido por muitos brasileiros.

O saldo da conta bancária cresce, mas os resultados esportivos deixam a desejar e o desgaste normalmente cobra um preço mais à frente, abreviando carreiras que podem ser avaliadas como medíocres ao final.

Depois da ponte

Depois da experiência da ponte, em Brasília, Daniel foi aconselhado por um amigo, o empresário Vinícius Alves Canhedo, a buscar ajuda. Recebeu o diagnóstico de que convivia com uma síndrome bipolar depressiva havia pelo menos dez anos. Por 17 dias, tomou um estabilizador de humor e ouviu a recomendação de voltar a correr ao menos três vezes por semana, 30 minutos em cada sessão.

“Fazendo regressão, percebi que sentia alguma coisinha quando me lesionava e tinha que parar por um ou dois meses. Eram muito recorrentes os episódios de frustração. Havia muitos altos e baixos”, recorda. Ao voltar a correr por indicação médica, percebeu que os hormônios naturais sintetizados pelo corpo graças ao esforço físico, como a endorfina e a serotonina, podiam colocá -lo no caminho que levava ao velho Daniel. “Correr virou o meu remédio. Joguei metade da cartela de comprimidos fora e hoje me sinto muito bem.”

O psiquiatra Arthur Guerra, que também é maratonista, triatleta e Ironman, explica quais são os benefícios que a corrida oferece a indivíduos com quadro de transtorno mental. “A corrida proporciona disciplina. Além disso, muitas vezes, é feita em grupos, e essa ideia é sensacional para quem vem de um transtorno: estar em atividade com um grupo formado por pessoas que nutrem os mesmos objetivos é excelente. E correr melhora a qualidade de vida. Quem corre naturalmente evita beber em excesso, para não prejudicar a performance”, garante Guerra. “Além disso, o praticante de corrida vai procurar uma alimentação melhor, provavelmente vai buscar um fortalecimento muscular em academia e alongará os músculos. Por fim, mas não menos importante, a corrida libera endorfina e outros hormônios que propiciam uma sensação maravilhosa, de realização. É o caso do cara que se propõe a subir uma ladeira. Ele consegue e, lá do alto, sente-se cansadão, mas feliz da vida!”, vibra o psiquiatra.

Com essas drogas oferecidas pelo próprio corpo, o verdadeiro Daniel, aquele que era promessa e voltou a ser, está presente. Em abril, foi o 15º colocado em Londres com a marca de 2h11min10s, 20 segundos abaixo do índice olímpico exigido pela então Iaaf (Associação das Federações Internacionais de Atletismo). Depois do recente Mundial do Catar, a entidade maior da modalidade passou a ser chamada de World Athletics. É possível, mas para lá de improvável, que três corredores brasileiros obtenham tempos melhores do que os do veloz petropolitano, tirando-lhe a vaga para Tóquio. Assim, o sonho de correr uma Olimpíada está prestes a se tornar realidade. A diferença é que não será na terra do sol abrasador, mas na do sol nascente.

No caminho de completar essa difícil jornada, Daniel aprendeu a não se cobrar demais. “Já sou grato, desde já, por tudo que eu puder fazer em Tóquio. O céu é o limite para mim. Ainda tenho muito a aprender, técnica e espiritualmente. Vou investir tudo que tenho na minha preparação nos meses que faltam para os Jogos Olímpicos. Sei que estou no início da minha caminhada. Se voltei depois de subir na mureta da ponte, é porque tem algo planejado por Deus para mim. Só tenho que fazer a minha parte.”

Por Alessando Lucchetti

 

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